“Desde que estou em casa, sou muito mais produtivo”.

Salvo exceções raras, os  profissionais que se encontram a trabalhar a partir de casa, como resultado de uma pandemia  que levou as organizações a tomarem medidas que minimizem o risco para a saúde dos seus  colaboradores, têm pronunciado não poucas vezes esta frase.  

O dito aumento de produtividade dos últimos meses, a avaliar pela perceção que  todos temos, traduzir-se-á forçosamente num crescimento das nossas organizações e, consequentemente, da economia do nosso país? Estaremos todos em breve a trabalhar menos, porque somos mais produtivos a trabalhar remotamente? 

Gostaria muito de afirmar que sim, mas tal não será possível sem que, entre outros fatores, cada um tome consciência da sua própria produtividade, não numa ótica de quantidade, mas mais numa ótica de qualidade, traduzindo-se esta qualidade em criação de  valor.  

Para melhor entendermos o propósito deste artigo, vamos socorrer-nos da história fictícia do Joaquim e do Duarte, tendo ambos terminado o seu percurso académico e estando atualmente à procura de um emprego. O Joaquim acorda cedo diariamente e, durante um mês, cumpre rigorosamente o  mesmo ritual – dedica-se ao envio de candidaturas durante cerca de quatro horas e reserva as  restantes horas do dia para entrevistas de emprego.

Apesar de sentir que a sua frustração aumenta à medida que o tempo avança, não baixa os braços e, à mesma hora, todos os dias,  senta-se em frente ao computador e reinicia a tarefa de envio de candidaturas. Durante um  mês, envia centenas de candidaturas, tendo começado pelas empresas nas quais teria maior  interesse em trabalhar e, com o passar do tempo e as respostas negativas que vai recebendo,  passando também a enviar candidaturas para empresas que conhece menos bem. O seu  objetivo passa por manter o ritmo no envio de candidaturas, porque acredita que a  persistência lhe trará os resultados esperados. Quanto mais candidaturas enviar, maior a  probabilidade de conseguir o emprego que almeja! 

O Duarte, por sua vez, tendo também terminado o ciclo de estudos a que se propôs, inicia a procura ativa de emprego, tal como o Joaquim, mas contrariamente a este, não divide  o seu tempo de forma rigorosa, pois prefere ir adaptando as suas ações ao que vai encontrando. Envia as suas candidaturas e, a cada resposta negativa que recebe, anota as  lições que aprende – os motivos para não ter sido aceite, os conselhos dos consultores de  recrutamento, o que sente que poderá melhorar no currículo ou no seu discurso em entrevista  – e adapta o seu currículo ou o seu comportamento em função destas aprendizagens. Dedica  as primeiras horas do dia à procura de emprego, durante as quais inclui contactos com pessoas  da sua rede de contactos que o possam ajudar, com quem por vezes também vai almoçar ou  lanchar. O resto do dia dedica-o a aperfeiçoar o seu Inglês, num curso online, a produzir  conteúdos para as redes sociais sobre as suas áreas de interesse e a pesquisar sobre as  empresas e setores nos quais gostaria de trabalhar. Uma vez por semana, faz voluntariado,  atividade que lhe permite desenvolver competências sociais e também participa em aulas de  teatro, pois considera-as importantes para trabalhar a sua comunicação. 

Ao fim de um mês, ambos os candidatos encontram finalmente a oportunidade de emprego que procuram. Seguindo percursos diferentes, ambos conseguem exatamente o mesmo resultado. Qual dos dois foi mais produtivo? 

Tendo o Joaquim e o Duarte obtido o mesmo resultado, podemos afirmar que o  caminho do primeiro foi mais árduo. Ao final de um mês, sentia-se esgotado, mas o esforço compensou, porque conseguiu um “sim” e pôde, enfim, começar a aplicar o que aprendeu durante o curso superior. Dias e dias iguais se seguiram, em que este candidato resistiu estoicamente às tentações e à vontade de desistir e cumpriu uma tarefa que, finalmente, lhe  trouxe o emprego que procurava. O Duarte, por seu lado, percorreu um caminho mais  divertido, diversificado, dedicando bem menos tempo ao envio de candidaturas. Quase que se poderia afirmar que foi uma sorte ter conseguido o que procurava, já que se esforçou tão  pouco. 

De facto, a sorte bateu à porta de ambos, mas e se não tivesse batido? Qual dos dois candidatos teria maior apetência para encontrar oportunidades diferentes e mover-se mais facilmente no mundo do trabalho, até quem sabe através de um percurso completamente diferente do que tinha em mente quando iniciou a sua procura de emprego? 

E se voltarmos a perguntar pelo Joaquim e pelo Duarte dez anos depois? Partindo do princípio que ambos mantiveram a mesma forma de serem produtivos, qual dos dois tenderá a ser mais bem sucedido na adaptação a eventuais mudanças na sua organização ou até na sua vida profissional?  

Na verdade, a produtividade é indissociável da noção de criação de valor. No mundo  atual em que as organizações se movem – volátil, incerto, complexo, ambíguo - acrescentar valor à proposta individual de cada um é oferecer maior produtividade, destacar-se da  concorrência e consequentemente aumentar o seu valor.

Acrescentar valor à própria empresa, após conseguir um emprego, é ser mais produtivo, destacar-se da concorrência e, consequentemente, aumentar ainda mais o seu valor. Do lado das empresas, acrescentar valor aos seus profissionais e aos seus clientes também é tornar-se mais produtivo, criar vantagem  competitiva enquanto empregador e fornecedor, destacar-se da sua concorrência e, consequentemente aumentar ainda mais o seu valor. 

Voltando à expressão sobre produtividade que muito ouvimos desde que o trabalho remoto se intensificou - “Desde que estou em casa, que sou muito mais produtivo”. De facto, trabalhar à distância, em princípio, implica menos interrupções e maior capacidade de foco, o que é absolutamente fundamental para aumentar a produtividade. Levantamo-nos menos, não gastamos tempo em deslocações nem em conversas, cumprimos horários de reuniões e até somos mais rápidos a responder a e-mails e outras solicitações.

Mas estamos a trabalhar mais ou melhor? Estamos a planear mais, a refletir mais, a estabelecer metas e a criar  realmente valor para nós, para as nossas empresas e para a nossa comunidade? Ou estamos sentados durante horas a fio “a enviar currículos” e à espera que os ventos da sorte estejam favoráveis, quais incansáveis Joaquins?  

Como andará o nosso ciclo de produtividade individual e coletivo - mais virtuoso ou viciado? 
 

escrito por

Lígia Mendes

talent acquisition manager, outsourcing, randstad portugal