os nós que existem em nós

Hoje, que é como quem diz atualmente, somos bombardeados com as ditas consciencializações de “um mundo novo” e que temos de o acompanhar (se não quisermos ficar para trás).

Ora é a “Era Digital” que passou a “pós-Digital” e que está a dominar o mundo, ora é a importância de “salvarmos a Terra”, que grita por socorro. É também urgente cuidar do ar que respiramos e vigiar o que comemos. É a sensibilização de optar pelo biológico, pelo natural.

Mas por vezes questiono-me, até que ponto somos nós naturais? Até que ponto nos permitimos ser naturalmente naturais (salva a redundância)?

Outrora, assumíamos dois grandes papéis, de vários sub papéis, o “eu pessoal” e o “eu profissional”, em que existia quase como um vestir e despir de uma pele.

Será hoje tão fácil viver neste registo? Que preço pagamos nós por isso?

Numa época onde a falta de tempo nos absorve como a maior (des)culpa para tudo e para nada!

Vivemos limitados por padrões ilimitados, que, se por um lado tudo o que é material e externo evoluiu, transformou-se, desenvolveu-se, por outro lado a nossa base, a nossa natureza, continua a ser “aprisionada” e condicionada precocemente. Tendo como princípio base o ensino (para não destacar todo o “antes” ) que pouco ou nada evoluiu no que diz respeito à forma, ao conteúdo e ao trato.

Desde cedo tentam (e até conseguem) estandardizar comportamentos, opiniões, sentimentos e emoções; ignoram e até frustram dons e competências que possamos ter. E logo aqui, nascem os lamentáveis rótulos dos “incapazes” e dos “portadores de défice de atenção e/ou hiperactividade”.

Ensinam (in)conscientemente a compararmo-nos com os outros. Forçam-nos a sermos iguais, para mais tarde, nos desafiarem a acrescentar valor.

Crescemos a ouvir que chorar é para meninas e para os fracos; que rir alto é desajustado, que dar abraços e beijinhos é ser mimalho e que falar do que os outros nos fazem (sentir) é ser queixinhas. E de repente, recebemos a boa nova “agora és crescido, comporta-te como tal” (seja lá o que isso for ).

Passamos para o mundo do trabalho e sabe-se (percepciona-se mas não se sabe o porquê) que quem veste camisa, fato e gravata e caminha no sapato mais alto ou brilhante é quem tem mais poder. Preconiza-se a ideia daquele que não (sor)ri; não fala com os colegas; não faz pausas; o que não “solta piadas”, o que “faz mais queixas” e o que sai mais tarde é sem dúvida o mais profissional. Acredita-se (ou receia-se) que quem concorda sempre e é mais ágil na arte de agradar é que será (re)conhecido…

Com toda esta mutação a acontecer e o tempo a não parar, optámos por reagir e ajustar (ou tentar) comportamentos ao que, aparentemente é esperado. Vivemos no dilema ténue daquilo que acreditamos ser bons versus aquilo que esperam de nós. Acabamos por ficar fechados no círculo que nos colocam, onde em vez de questões e soluções, acumulamos frustrações.

As regras são necessárias assim como a ordem, mas muitas vezes é na desordem das exceções à regra que mora a inovação.

Entendo que é fundamental analisarmos a necessidade efetiva de fomentar o foco nos resultados em vez de premiar um horário rígido; incentivar e aceitar que a felicidade e a motivação não é uma teoria cliché mas sim o motor.  

No fundo, é necessário actualizar o que define e valoriza a pessoa e o colaborador de hoje. O que mudou?

O que verdadeiramente importa?

Percebermos o quanto antagónico é pedirmos para que se pense fora da caixa mas mantermo-nos dentro de uma ou várias?

Percebermos o quão egoísta e confortável pode ser mantermos os padrões como escudo e a culpa (no outro, claro) como desculpa para tudo o que (nos) acontece (ou não)?