Não me posso queixar.

Nasci numa época em que assisti à minha avó trabalhar, a minha mãe trabalhar e eu sonhar em ser cientista e astronauta em part-time com 4 anos de idade.

Não posso reclamar quando mais de 70% da minha turma na licenciatura eram mulheres e os estágios que realizei tinham sempre mais membros femininos.

Não posso protestar quando a minha equipa só tem mulheres e o trabalho é feito em equipa.

Não me posso queixar… dizem-me, cada vez que confronto com a realidade laboral, em que cargos executivos continuam a ser ocupados por mais homens do que mulheres.

Não é por a minha realidade ser diferente, graças às conquistas de gerações anteriores, que não devo olhar para o lado, para a luta de cada mulher e por saber que o nosso caminho tem sempre pedras, especialmente se quisermos subir, se quisermos chegar ao topo.

O panorama está a melhorar, dizem os entendidos, mas melhorar não é ficar bom, ainda há muito por onde começar. O gap salarial, a desigualdade de oportunidades, a silenciosa descriminação em idade fértil, sem mencionar a resiliência inerente que uma mulher é obrigada a desenvolver para assumir o cargo que é habitualmente proposto a um homem e que este aceita sem pensar na responsabilidade social que tem às costas.

E o leitor pergunta “responsabilidade social?” É isso mesmo. Cada mulher no mundo corporativo carrega às costas a responsabilidade de provar o valor, as competências e a experiência que traz, e tudo isto sendo “ainda por cima” mulher, muito mais acentuadamente do que qualquer outro colega do género oposto.

Mas não me vou alongar, não quero ser acusada de parcialidade por ser mulher e falar do tema, vou deixar os dados falarem por mim.

62% das mulheres vêem a discriminação de género como um obstáculo aos cargos de liderança e 63% acreditam que existe um gap salarial entre homens e mulheres (comparando com 45% dos homens). E estes dados são de 2020, o que demonstra que estes dados são reais e recentes. (estudo Randstad Canada).

Também foi em pleno 2020, que  30% das mulheres tinha receio de perder o seu trabalho para a tecnologia, o que demonstra que a disrupção da tecnologia deve ser acompanhada e trabalhada por todos.

A diversidade no local de trabalho e nas equipas não se prende só em garantir que a quota de mulheres por m2 da empresa é correspondido. É entender que estes obstáculos ainda existem e devem ser discutidos e resolvidos.

Pode ser que um dia mais tarde, num futuro longínquo, as minhas filhas também não se queixem.


 

sobre o autor
this is a woman
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Sofia Cansado

marketing and communications consultant, randstad portugal