Ninguém é igual, mas todos somos substituíveis.

Substituíveis, não para os nossos, mas no que fazemos, na nossa profissão somos sempre insubstituíveis. Se não formos falhamos. Falhamos com a empresa e connosco. Falhamos ao colocar o negócio em risco, ao não definir sucessão, ao não abrir e partilhar o conhecimento para que outros possam acrescentar valor.

A dinâmica e a incerteza do mercado exige o reconhecimento da diferença e da substituição/ sucessão. O reconhecimento e a preparação destes dois factores é fundamental para osucesso da organização, mas vamos por partes.

I. Ninguém é igual

Todos somos diferentes e não é só na aparência, mas no comportamento e nas competências. A forma como abordamos os problemas, como comunicamos e analisamos os factos é condicionada pelo conhecimento, influência e experiência. Tendo esta multiplicidade de factores em consideração, é fácil perceber que somos todos diferentes. Uma diferença que é colmatada com a procura da semelhança. Com a criação de grupos em que o igual está na paixão, cultura, propósito ou fé. Factores que levam à criação de grupos. Uma definição básica mas que pode (e deve) ser destruída nas empresas. As organizações são tecidos vivos que devem respirar a diversidade dos seus colaboradores. Quanto maior a diversidade das equipas, maior a capacidade de ter visões diferentes, de criar e responder a problemas, de inovar e aumentar o conhecimento. O desafio na diferença está em aceitá-la, em incluí-la no ADN e na atitude de todos os que trabalham na empresa. E se a diversidade pode ser imposta em quotas e em descriminação positiva, a inclusão exige muito mais do que um número, é transformar esse número em parte integrante do todo.

Não é apenas convidar para uma festa, mas conversar, dançar e aceitar o nosso convidado. Este é um caminho complexo mas que as empresas têm que trazer para o seu dia-a-dia, demonstrando resultados, comunicando essa inclusão não apenas na sua missão, mas em tudo o que fazem.
Queremos empresas mais humanas na forma como gerem as suas pessoas, empresas que tenham este super poder de contribuir para uma sociedade melhor, de influenciar comportamentos que resistam à diferença, a capacidade de desconstruir estigmas e encontrar na diversidade um ambiente positivo, de produtividade e confiança, que leve os colaboradores a questionar e combater a diferença que é censurada na nossa sociedade.

Este compromisso parece utópico, mas o factor da multiplicação mostra-nos que se cada uma das empresas o assumisse, a nossa sociedade e cada um de nós poderia beneficiar e ser muito melhor. Numa perspectiva de gestão, são também muitos os estudos que demonstram oimpacto financeiro da diversidade e inclusão, relacionado com a qualidade das equipas que conseguem completar e melhorar a sua entrega. A matemática só fundamenta o que deve ser um princípio fundamental, aceitarmos as pessoas como elas são. 

II. Ninguém é insubstituível

Esta é a verdade que todos tememos, a que nos lembra que também nós podemos ter alguém na nossa cadeira amanhã. Mas uma função não é uma cadeira, é uma troca, é um propósito que me faz acordar de manhã. Uma função é dar e receber, é entregar e acreditar, contribuir para um todo. E é neste motor invisível que fica a minha relevância. Um motor que contribui para a organização, uma incerteza que deve ser vivida de forma positiva através da entrega constante e não como um espaço de conforto porque sou difícil de despedir, sou demasiado caro ou estou efectivo.

Não sou substituído porque sou relevante, mas sou sempre substituível. E isso é bom. É bom saber que se eu não poder estar e não conseguir fazer, alguém me pode substituir e dar continuidade. Alguém consegue entregar o meu trabalho, fazer o que eu fazia. De forma diferente é verdade, mas já dissemos que a diferença nem sempre é má, até é boa. É bom saber que se amanhã não conseguir estar, alguém vai continuar o meu propósito, que não estou amarrado a uma cadeira, que posso também decidir sair e que não sou o único a conseguir fazer, há quem também o faça, há quem me possa substituir. E nem mesmo o melhor do mundo é insubstituível. O Ronaldo tem no banco quem o possa substituir. Não podemos querer "one man show" porque falhar é humano, porque também os melhores se cansam, se lesionam, se contaminam e de um momento para o outro têm de estar isolados e confinados.

É preciso assegurar que temos pessoas no banco, que temos olheiros a fazer identificação de perfis, que nem o roupeiro é insubstituível porque sem camisola ninguém entra em campo. É preciso não ter medo de ter uma estratégia de talento, de ter pessoas identificadas, de ter de fazer substituições imediatas. Porque no campo só ganha quem tem as melhores pessoas. E quem fica no banco não pode desesperar. Tem de treinar mais, mostrar vontade e empenho, aceitar que a qualquer momento pode começar a jogar. Porque todos são substituíveis e amanhã pode ser o dia de entrar em campo e marcar. 
 

sobre o autor
José Miguel Leonardo

José Miguel Leonardo

ceo da randstad portugal