A pandemia empurrou-nos para casa, obrigou-nos ao confinamento e num abrir e fechar de olhos o nosso trabalho passou a ser realizado de forma remota. Entrámos inesperadamente na era do teletrabalho. 

As entrevistas de seleção, esporadicamente realizadas online, apenas quando a distância era um constrangimento difícil de ultrapassar, passaram a ser realizadas quase na totalidade através do monitor do nosso computador. Essa janela passou a ser o elo de ligação possível aos candidatos, e o principal meio de suporte da avaliação psicológica. 

Demos por nós ligados durante as oito horas de trabalho diárias, com os olhos fixos num pequeno écrã, ao longo do qual surgiam vários rostos, cada qual com o seu semblante, as suas expressões, com sorrisos mais ou menos rasgados, posturas de maior ou menor à-vontade, mas o que acabou por nos surpreender foi sermos confrontados mais frequentemente com a nossa própria imagem durante as entrevistas. 

A nossa imagem passou a estar sempre presente e, o olhar anteriormente concentrado apenas no candidato, ficou agora dividido entre a imagem do “outro” e a nossa própria imagem. Pelo canto do olho vamos assistindo, ao vivo e a cores, às nossas micro-expressões faciais e a outros comportamentos não-verbais que fazemos durante cada entrevista, e vamos sendo interpelados, mais do que anteriormente, sobre o efeito do nosso próprio comportamento no desempenho dos candidatos. 

As micro-expressões correspondem a expressões faciais subtis que se manifestam nos seres humanos e que são desencadeadas pelas emoções experienciadas naquele exato momento e por norma têm uma duração de 1/15 segundos. São expressões involuntárias, produzidas pelos nossos músculos e que têm a mais-valia de serem universais, por oposição à linguagem corporal que deriva em grande parte da cultura e da educação. 

Sendo assim, em qualquer parte do planeta, através das micro-expressões, qualquer pessoa pode percepcionar no nosso rosto, a alegria, o desprezo, o nojo, o medo, a tristeza, a raiva e a surpresa. São estas as sete micro-expressões faciais universais. 

Em contexto de entrevista bem sabemos que comportamento gera comportamento. Quando questionamos uma pessoa e a observamos de frente prolongadamente, quando a ouvimos sem pestanejar ou quando franzimos as sobrancelhas repentinamente, podemos gerar desconforto psicológico ou comportamentos defensivos por parte do candidato entrevistado. 

A comunicação não-verbal durante a entrevista deve servir para criar um espaço de confiança, gerando a oportunidade de compreender melhor o outro, o que ele sente, deseja ou teme, devendo os consultores de recrutamento e seleção reduzir ao máximo todos os factores que possam constitiuir-se como fontes de constrangimento para os candidatos e que simultaneamente, possam ter impacto negativo na qualidade da informação reunida pelo consultor com vista à emissão de um parecer preditivo. 

A utilização das entrevistas online pode ajudar-nos à realização de verdadeiras autoscopias nas quais temos acesso às nossas micro-expressões faciais e a outros comportamentos não- verbais, cujo reconhecimento se reveste de extrema importância para o desenvolvimento da nossa inteligência emocional, melhorando consideravelmente a gestão das relações interpessoais e o desenvolvimento da empatia com os candidatos durante o processo de recrutamento e seleção. 

Em suma, o teletrabalho aplicado à seleção, entre benefícios e limitações, trouxe-nos a possibilidade de desenvolvermos um melhor autoconhecimento sobre o nosso comportamento não-verbal durante as entrevista que conduzimos, que podemos e devemos aproveitar.

 

escrito por
Carminda Dias

Maria Carminda Dias

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