Uma irmã mais velha e um total de 23 primos direitos.

Entre o mais velho e o mais novo, 15 anos de diferença de idade.

Entre todos, 5 raparigas.

Um bando, um grupo.

Não havia género nesta equipa que brincava toda junta, principalmente nas férias em casa dos avós, mês de verão após mês de verão. Não havia género; havia apenas o mais rápido, o que se escondia melhor, o que sabia mais sobre animais, o que já tinha ido sozinho a festas à noite, quem andava melhor de bicicleta ou patins, o que mergulhava mais fundo... Éramos uma força unida, junta para o melhor e para o pior, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza e abençoados porque, até agora, a morte ainda nenhum de nós separou. Ninguém deixava de fazer o que quer que fosse por ser rapariga ou rapaz, ninguém era deixado para trás, todos tínhamos características próprias, mas era dessas nossas diferenças que nascia a nossa força e aquele imenso poder de união. Os bons efeitos disso ainda hoje me acompanham.

Por sorte, ou precisamente porque nunca me tinha detido para pensar que alguém pudesse ser tratado de forma diferente por ser rapaz ou rapariga, frequentei escolas onde essa situação nunca se colocou. Haviam colegas simpáticos e antipáticos, parvos e fixes, marrões e divertidos, companheiros e pouco leais, mas nunca ninguém era tratado de forma diferente por ser rapaz ou rapariga... Essa diferença começou a aparecer, pelo lado positivo, quando na adolescência, começaram a surgir as primeiras paixões; mas continuávamos iguais...

E de repente... a vida aconteceu...

De repente ..., na faculdade que frequentei (a de Direito!), alguns professores ofendiam as alunas nas provas orais, questionando-as para que se davam ao trabalho de estudar quando o lugar das mulheres é na cozinha; outros, eram conhecidos por passar com melhores notas as alunas que usavam mini saia nos exames; outros ainda, eram tão mais generosos com as notas quanto mais profundo fosse o decote...

De repente ..., quando procurava o primeiro emprego, foi-me dito, olhos nos olhos, ao lado do outro candidato homem que comigo estava na short list, que eu era mais habilitada para o lugar do que ele, mas que seria ele o escolhido porque um dia “não lhe ia passar pela cabeça começar a sair menos tarde porque tinha filhos”; e foi o CEO de uma importante sociedade financeira da altura que o disse, com ar orgulhoso da sua magnífica decisão de gestão.

De repente ..., ouvi insinuações que se calhar seria melhor não ser eu a ir a tribunal defender um determinado cliente, porque a situação era tecnicamente difícil e eticamente pouco apropriada para ser tratada por uma mulher.

De repente .... apercebi-me do longo caminho a percorrer...

Não gosto particularmente de cozinhar, fiz todos os meus exames de calças compridas e largas e acho que vem desse tempo o meu gosto por echarpes à volta do pescoço; assisti à derrocada económica e financeira do grupo que apenas queria elementos do sexo masculino como seus colaboradores; ganhei em tribunal todos os casos difíceis e complexos, todos os que aceitei porque sabia que os meus clientes tinham razão, independentemente da dureza e crueza dos temas.

Estudei o dobro, trabalhei o triplo e investi quatro vezes mais.

E tenho a certeza que os meus temas não são nada comparados com a situação das dezenas de mulheres que no nosso país continuam a morrer às mãos dos seus maridos, namorados e companheiros, vítimas da maior de todas as violências: a traição e o abandono no local onde se deviam sentir mais seguras - a sua casa, a sua família.

Não são nada, comparados com os dramas vividos mundo fora por mulheres que lutam por direitos tão básicos como poderem garantir a sua escolaridade, ter um emprego, garantir o seu sustento e a sua independência, a sua segurança física e a dos seus filhos (principalmente a das suas filhas) e terem direito à sua auto determinação.

E não são nada, seguramente, comparados com a vida de jovens mulheres de 21 anos que, acompanhadas por 3 ou mais filhos, percorrem diariamente dezenas de quilómetros para carregarem de volta, à cabeça, às costas, nos braços, litros de água preciosa para a sua família e para .... os banhos do homem da casa!

Estes, sim, são longos caminhos a percorrer. Longos caminhos que todos nós podemos e devemos conhecer; conhecer, para os podermos transformar definitivamente!

Tenho uma família, e duas filhas. Também elas, no meio das dezenas de primos e tios e tias não sabem (ainda) o que é a diferença de tratamento, e cabe-me a mim, investir todos os dias ainda mais para que a sociedade se vá transformando e cada vez menos estas diferenças se sintam. Para que o caminho que elas um dia terão de percorrer seja uma estrada bem mais fácil do que todos estes exemplos.

Cabe, também, a todas as mulheres, mães de filhos, a imensa responsabilidade, de, desde cedo, lhes incutirem o conceito de igualdade entre géneros, de apoio e divisão de tarefas, usando as diferenças de cada um a favor do bem comum. Acabar de vez com a ideia que um homem é extraordinário porque “ajuda em casa”. Ajuda...?!?! “Ajudar” significar apoiar alguém a fazer o que lhe compete; ao tecermos este enorme pseudo elogio reforçamos ainda mais a ideia que as tarefas são das mulheres e estes “seres especiais” condescendem em ajudá-las...!!

Não! As tarefas, direitos e deveres são de todos.

Em igualdade.

Homens e mulheres não são física nem psicologicamente iguais, mas são as diferenças aquilo que os complementa e equipara. E se não são física nem psicologicamente iguais, são-o certamente em matéria de capacidades. Assim lhes sejam dadas as mesmas oportunidades, assim não lhes apresentem barreiras desiguais pelo caminho, nem falsas ajudas, nem hipocrisias ou paternalismos.

Só em igualdade conseguiremos alcançar um futuro sustentável, equilibrado e justo.

E se o quero para as minhas filhas, também o exijo já e agora, aqui, para mim!

Porque o futuro, se o queremos construir de outro modo, temos de começar já hoje com uma aposta de força: o futuro tem de ser diferente, o futuro tem de ser de Igualdade! Por todas aquelas que não a tiveram e por todas aquelas que nunca permitiremos que deixem de a ter!

 

Mariana Canto e Castro

Lisboa, 8 de Março de 2020

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mariana canto e castro

Mariana Canto e Castro

diretora de recursos humanos, randstad portugal