Nos últimos 10 anos, o sector bancário registou uma profunda transformação: passou a estar mais regulado, o que permitiu melhorar os seus mecanismos de controlo de risco e de capitalização, passou a ser mais tecnológico, investindo muito mais na inovação digital e numa nova cultura tech, e adoptou uma nova forma de relacionamento com os clientes e a sociedade, posicionando-se cada vez mais numa relação de transparência e de igual para igual. 

A crise do Subprime de 2008,  teve a força suficiente para empurrar a grande transformação do sector financeiro, não só do ponto de vista de política bancária, mas sobretudo na transformação tecnológica. Esta crise abriu caminho a mais de 25.000  startups financeiras  que muito rapidamente ocuparam um lugar de relevo. Irreverentes, sexys, low cost e muito flexíveis, facilmente ganharam adeptos por todo o mundo. Enquanto isso, a Banca tradicional, que registrava volumosas perdas económicas e de confiança, assistia paralisada ao crescimento desta nova cultura.

Depois da tempestade, as lições

Sobre o futuro da Banca, João Vieira Pereira, em Abril de 2016, escreveu o seguinte na Exame: “Aposto que um jovem hoje confiava mais rapidamente o seu dinheiro ao Facebook ou ao Snapchat (…)”. Esta frase resume as duas principais prioridades que o sector teve de responder: reconquistar a confiança dos consumidores e o investimento no digital. Em simultâneo, devido a exigências orçamentais, os Bancos tiveram que reduzir em escala a sua rede de balcões (em Portugal, entre 2011 e 2020, fecharam perto de 2 mil), o que forçou a Banca a inovar a sua posição junto dos clientes. Neste contexto, o customer experience adquiriu um enorme relevo e os Bancos queriam agora ser mais próximos, mais humanos e menos “instituição”. O investimento no digital, na inovação de processos  e na multicanalidade eram urgentes e o amplo sucesso das fintech permitiu replicar as rápidas lições. A Banca tradicional percebeu rapidamente que tinha de cortar com as suas raízes e deixar de ser “tradicional”. 

A crise 2020

A actual crise poderá ser uma oportunidade para uma maior aproximação entre as fintech e a banca dita tradicional. Os impactos desta crise vão esfriar o ecossistema das fintech e poderão torná-lo mais permeável, até porque estas já não navegam no calmo Blue Ocean onde havia espaço para todos e os investidores abundavam. Não  estou a dizer que este ecossistema vai entrar em declínio, nada disso! O recente Portugal "Fintech Report 2020" mostra-nos que, apesar da crise, as fintech portuguesas estão mais maduras, têm conseguido manter a tendência de crescimento e que Portugal é um potencial European Fintech Hub. Em resumo, se temos uma Banca cada vez mais tecnológica e um ecossistema fintech mais maduro, acredito que possamos assistir a mais sinergias entre as duas realidades, principalmente num contexto de crise, através da lógica de “same business, same, risks, same rules”.

O Tradicional já não é o que era

A transformação digital ocupou uma posição estratégica em todos os sectores da sociedade, sobretudo no financeiro. No caderno “Como serão os pagamentos do Futuro?”, da Smartpayments (2020), podemos ler que os pagamentos digitais, em 2019, atingiram os 3,4 biliões de euros em todo o mundo e que, em 2018, cerca de 2,3 biliões de pessoas usaram carteiras digitais, prevendo-se que duplique em 2024. Segundo o estudo “State of Mobile”, da App Annie (2020), cada vez mais os consumidores estão a mudar as suas rotinas financeiras para o mobile: em 2019, o número de vezes que se acedeu a apps financeiras foi de ~1 trilião de vezes, um crescimento de 100% face a 2017. Toda esta mudança de hábitos só foi possível pelo desenvolvimento na cibersegurança e pela sua regulamentação, tornando os bancos cada vez mais inteligentes na detecção de irregularidades e tornando as plataformas de digital banking completamente seguras. A banca tornou-se mais digital, mais remota, mais segura, mais flexível nos serviços financeiros e apostou na personalização dos seus clientes, numa lógica de "Any Time, Any Where, Any Device, Any Content".

Falando como cliente posso confirmar que, em poucos anos, senti toda esta transformação no meu Banco: a inovação digital e a mudança no relacionamento comigo. Falar com o meu Banco já não é um “evento” que exigia a devida preparação, como era há uns bons anos! Hoje sinto que há uma relação de maior confiança e proximidade e o mais interessante é que estas desenvolveram-se à distância, porque consigo comunicar e fazer todas as minhas operações remotamente. 

Em suma, diria que a Banca já conseguiu reunir todas as condições para sair do “tradicional”. Até a expressão “banca tradicional” cada vez mais parece coisa do passado. E esta pandemia reforçou isso! Por exemplo, dizer em Janeiro deste ano que a Banca ia realizar operações bancárias em teletrabalho, seria uma loucura. E no entanto aconteceu. E provavelmente irá continuar.  Mas isso será outro artigo...

 

 

1. InforBanca, Nº 119 | MAIO.2020

2. Hélder Rosalino, “Como serão os pagamentos do Futuro?”, Smartpayments, 2020

sobre o autor
ricardo monteiro

Ricardo Monteiro

business unit manager ,outsourcing, randstad portugal