#3 meses na primeira pessoa - Kazi na Dawa*

Aterrei em Dar pelas 21:30 com mais 5 pessoas.

Eu e outra voluntária vamos ficar na Tanzânia por 3 meses e teremos um visto temporário. As restantes ficam entre 6 a 9 meses e necessitam de um visto permanente. Este foi o nosso primeiro desafio. Tínhamos toda a documentação, mas estava em falta alguma informação. Dessa forma, sem outra alternativa ligámos ao único contacto que tínhamos da VSO para que pudesse falar com o oficial de emigração, pois as tentativas em inglês não estavam a correr muito bem. E por causa da hora tardia, grande parte do aeroporto estava fechada e poucas pessoas no departamento.

Após cerca de 1 hora conseguimos tratar de tudo e fomos para o hotel.
O check in foi complicado e moroso, após uma viagem de avião de cerca de 10 horas, o nível de paciência não está propriamente nos píncaros. Demorámos cerca de uma hora novamente a conseguir tratar do check in, pois a senhora, muito simpática, tinha um livro de registo que folheava vezes sem conta sem nos dar qualquer indicação.

Chegada ao quarto percebo que apenas tenho um lençol, não tinha rede mosquiteira mas em contrapartida um buraco entre a ombreira da porta e a parede. A primeira noite foi complicada, acordei diversas vezes ora pelas picadas de mosquitos ora pelas orações da mesquita do lado.

Na manhã seguinte conhecia a minha nova realidade. Três meses é verdade, mas três meses a tempo inteiro, onde a minha zona de conforto se resume à tecnologia que me mantém ligada à minha vida na Europa. A cidade é evoluída e tem imensa vida. Tem restaurantes com comida local mas também conseguimos encontrar cadeias internacionais como a Pizza Hut! Existe imenso comércio, não só de comida mas de roupa, equipamento electrónico ou artigos para casa. Além disso existem supermercados parecidos com os europeus e ainda centro comerciais.
Numa cidade movimentada é necessário ter atenção à segurança. Logo no primeiro dia avisam-nos para andarmos do lado direito da estrada (sentido contrário dos carros – condução inglesa) e usar a mala também no ombro direito. Durante o dia não há problema em andar na rua, mas assim que o sol se põe não devemos caminhar ou estar sozinhos. Mesmo que o trajeto seja curto temos sempre que ir de transporte, de táxi ou bajaj (tuk tuk). Por outro lado, o preço é sempre algo desafiante, porque tudo é negociável e por não sermos locais o valor é sempre (muito) mais alto.

O escritório fica a cerca de 20 minutos a pé do hotel, mas nos primeiros dias tivemos transporte privado da VSO.


 
Todas as pessoas são simpáticas e foram bastante acolhedores. Na primeira semana todos os voluntários recebem um plano de integração à ONG e ao país, sendo que cada tema é liderado por alguém diferente do escritório. Dessa forma, temos oportunidade de conhecer diferentes pessoas e algumas delas iremos trabalhar de forma directa. Durante a formação esteve presente ainda uma voluntária (mas que estava na última semana do placement). Foi muito importante ela estar presente, porque deu uma ideia mais real do que poderíamos encontrar e claro, sabe bem os nossos anseios e preocupações. Foi ela que nos acompanhou nos dois primeiros dias em relação às refeições, sítios a ir e algumas dicas interessantes acerca da cultura e forma de vida.    
A formação foi interessante mas como estamos em África, tudo muda a cada segundo e nem sempre conseguimos fazer aquilo que esperamos, é preciso sabermos gerir as nossas próprias expectativas. Assim, nos primeiros 2 dias a formação terminou pela hora de almoço, ora porque não havia internet ora porque alguém que era suposto dar a formação simplesmente saiu. 
Esta é sempre a primeira lição THIS IS AFRICA. Todos nos dizem GO WITH THE FLOW. E nós lá andámos com a flow e assim aproveitamos todo o tempo livre para passear.

Neste novo tempo livre, longe dos amigos e da família, há a oportunidade de conhecer, experimentar e reconhecer as diferenças do que é a nossa realidade. A comida tem uma grande influência indiana com molhos e algumas especiarias, mas com sabores um pouco distintos daqueles que estamos habituados nos típicos restaurantes indianos em Portugal. As refeições disponíveis em restaurantes locais de rua são à base de banana, arroz ou pilau (arroz com especiarias que pode conter carne ou vegetais), carne (maioritariamente galinha) ou até alguns peixes que nunca consegui perceber o que eram. Um dos desafios foi comer com as mãos, no limite têm uma colher, toda uma adaptação! 


 

 

As ruas/estradas principais são alcatroadas, mas as perpendiculares ou paralelas são de terra batida ou tipo “caminho de cabras” repletas de pedras. Imaginem a Avenida da República alcatroada mas a Elias Garcia ou a Defensores de Chaves de terra batida. Além disso, as ruas que são alcatroadas têm imensas lombas e bastante altas. Acho que a velocidade média é cerca de 20km/h. As estradas não têm passeios nem passadeiras, sendo que o trânsito é completamente caótico, com o código “cada um por si”. Por vezes, encontramos três carros lado a lado e no meio ainda uma mota. O trânsito é de facto algo a ter atenção!


 
Outra questão são as chuvas. O tempo muda rapidamente, sempre quente e húmido, mas num momento está um sol radioso e no minuto seguinte começa a chover e pode durar uma hora. As estradas ficam completamente alagadas e é um desafio conseguir passar. A estrada do hotel num dos dias parecia uma piscina e saltitamos entre pedrinhas de forma a conseguir caminhar até ao escritório. Felizmente no período em que estive em Dar apenas choveu durante a noite.

 

É muito frequente as pessoas cumprimentarem-se na rua, mesmo não se conhecendo. O swahili tem imensos “cumprimentos” e uma conversa pode durar 5 minutos apenas com pergunta e resposta de olá, tudo bem, novidades?, como estás? Por outro lado, quando gostam de alguém falam de mãos dadas. Vi apertos de mão que se prolongaram durante toda a conversa. Pelo que percebi a repetição deste tipo de cumprimento está relacionada com a importância da pessoa ou assunto. Ou seja, em Portugal muitas vezes dizemos boa tarde na rua e seguimos caminho. Porque não conhecemos a pessoa, porque estamos a ser educados, porque não queremos mais conversa ou porque não temos tempo. Na Tanzânia repetem o cumprimento para que a outra perceba que estão mesmo preocupados e que gostam da pessoa. O mesmo se aplica a assuntos ou temas. Se necessitarmos de alguma informação, mesmo a nível profissional, devemos perguntar diversas vezes durante o dia, ou nos seguintes, para que a pessoa perceba que o tema é mesmo importante para nós.

No fim-de-semana tentamos aproveitar o tempo ao máximo e conhecer novos locais. No sábado fomos a uma ilha deserta, Mdbuya, que fica a cerca de 60 minutos de barco de Dar. A ilha é simplesmente paradisíaca! Tem apenas uns locais que vendem comida e um género de casinhas de palha para dar sombra. A água é espectacular, limpa e azul, um sítio perfeito para descansar. Comemos fish & chips (com as mãos) e depois fomos dar uma volta, na zona de maior vegetação.

 

Após uma caminhada desafiante entre poços, raízes gigantes, cactos e imensa vegetação fomos dar uma praia deserta do outro lado da ilha. Como se fosse possível a vista era ainda mais espectacular. No entanto, é também uma reserva gigante de lixo entre sacos de plásticos, sapatos e garrafas. 

No domingo aproveitamos para ver a real Dar. Fizemos uma bike tour que nos leva a diferentes bairros típicos da cidade. 

 

A viagem tinha imensas paragens, desde o sítio onde começaram a fazer café na cidade, onde nos sentámos e provámos, a casa de uma senhora que fazia chapati (género de pão/panqueca) onde tomámos o pequeno-almoço, uma farmácia ou o mercado local, o mais barato da cidade. A viagem foi dura com o choque de realidade, porque inclusivamente estivemos no bairro mais pobre de Dar. De realçar que todas as pessoas são simpáticas e acolhedoras, mesmo vivendo num sítio com casas de palhota e algumas de cimento, uma divisão para uma família de 8 e no meio de uma lixeira sem explicação, nunca, em momento algum, pediram dinheiro. Pois tal é comum nas ruas da cidade. Os miúdos corriam atrás das bicicletas e queriam fazer pose para as fotos.

Conhecemos uma senhora que é “curandeira” e que vive da boa vontade dos demais, que lhe oferecem comida e roupa em troca de remédios e tratamento. Além disso faz um género de bordado e ainda almofadas que as pessoas utilizam para guardar o dinheiro. Como o pouco que têm não é suficiente para ter uma conta bancária, colocam o dinheiro no compartimento da almofada e dormem sobre a mesma. Acreditam que desta forma o dinheiro está seguro e que talvez conseguirão ganhar mais no futuro. 

Como apenas iria estar uma semana em Dar foi a oportunidade ideal para conhecer a verdadeira realidade da cidade e forma como as pessoas (sobre)vivem.

Swahili
Apenas quem está no país por mais de três meses tem aulas do idioma. No entanto, como precisava de tomar uma vacina na terça-feira da segunda semana acabei por ter dois dias de aulas. O idioma é mesmo complicado e difícil de perceber porque os pronomes, prefixos e algumas conjugações são muito parecidos, tenho que estar mesmo muito atenta ao que estão a pronunciar. Outras dificuldades são o facto de não conseguir relacionar as palavras com outro idioma que conheça e porque as aulas são dadas por um professor que fala inglês não nativo, o que acresce o nível de dificuldade na compreensão e interpretação. Mas que ao mesmo tempo era super divertido!



Algo muito importante foi o grupo de pessoas que conheci. Durante estes dias estivemos 7 pessoas em formação, sendo que 6 são Randstad. O grupo tem pessoas de diferentes idades e que vêm da Bélgica, França, Holanda e Canadá. Foi giro estarmos todos em sintonia, mas ao mesmo tempo respeitámos o espaço e tempo de cada um.

As pessoas são sem dúvida algo a reter, sejam locais como voluntários internacionais. Depressa somos rafiki (amigos)!

 

 

* Kazi na Dawa que quer dizer work hard, play hard. É uma expressão local e ainda um dos valores do projecto onde estou. :-)

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3 meses na primeira pessoa

3 meses na primeira pessoa é um blogue escrito pela Isabel Relvas Ferreira, senior manager da Randstad Portugal. Uma experiência que é partilhada de uma forma muito pessoal, revelando assimetrias mas também o verdadeiro potencial do ser humano.

 A Isabel integrou um programa de voluntariado internacional através da parceria entre a Randstad e a VSO (Voluntary Service Overseas). Estará na Tanzânia durante 3 meses (setembro a dezembro 2018) como Marketing Advisor inserida no programa T-LED (The Tanzania Local Enterprise Development), a dar apoio a Pequenas e Médias Empresas.
A VSO é uma ONG com a missão de “Um mundo sem probreza”. Tem parceria com diferentes empresas, nomeadamente com a Randstad, há cerca de 14 anos, que possibilita aos colaboradores prestarem um serviço de voluntariado internacional de acordo com a sua área de especialização.
Mais informações sobre a VSO https://www.vsointernational.org/
O T-LED apoia PME para um crescimento económico sustentado e de igualdade de género. A maioria das empresas é do sector Agro e detida por mulheres. Mais informação sobre T-LED project em http://www.t-led.co.tz/

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