• SOFIA CANSADO

Olá! Sejam bem-vindos ao podcast #EVERYDAYHERO. Hoje vamos falar sobre nómadas profissionais. Não é algo que ainda tenhamos na empresa, mas que certamente somos especialistas. E, comigo, eu tenho o André Ferrão. O André é da área de Tecnologia da Professionals, na Randstad, é Consultor de Recrutamento. Olá André! Bem-vindo! Claro que sim. André, antes de mais acho que a introdução que eu te dei é muito breve. Portanto, por favor, apresenta-te.

 

  • ANDRÉ FERRÃO

Ok. Pronto, o meu nome é André Ferrão. Eu tenho cerca de 11 anos de experiência profissional na área de recrutamento. 9 anos de experiência no recrutamento de perfis de IT. Estou na Randstad desde 2014. Comecei como trainee, atualmente faço a gestão de uma equipa de três pessoas maravilhosas na área da Professionals.

 

  • SOFIA CANSADO

Muito bem. E fala-me mais um bocadinho sobre a tua experiência, o teu Fun Fact.

 

  • ANDRÉ FERRÃO

Olha, eu vim para ao IT um bocadinho por acaso. Porque na minha formação eu tenho uma licenciatura em Sociologia e Planeamento e um mestrado em Gestão de Recursos Humanos no ISCTE, que foi a faculdade que eu escolhi para frequentar, porque tinha boas referências da mesma. O meu Fun Fact, acho que se calhar as pessoas acreditam que alguém que seja, que esteja a recrutar em tecnologia seja próximo da tecnologia, mas eu não sou nada tecnológico. Tenho um telemóvel bastante simples, não gosto muito de aplicações ou coisas muito "techis", eu sou mais fã de comida, experimentar comidas diferentes, estar com os amigos. Ou seja, o mundo tecnológico e as aplicações não é algo que eu goste.


 

  • SOFIA CANSADO

Portanto, em casa de ferreiro...

 

  • ANDRÉ FERRÃO

Exactamente. Aplica-se o ditado.

 

  • SOFIA CANSADO

Sim, mas eu acho que não tem, não tem a ver, não é? Não podemos fazer esse estereótipo. Muito bem, obrigada. É um bom Fun Fac, até porque normalmente não se está à espera e é uma boa introdução, até para começarmos a falar do que  é que de facto são nómadas profissionais. Porque isto é uma, é um fenómeno que começou...

 

  • ANDRÉ FERRÃO

Uma nova nomenclatura, não é. Sim.

 

  • SOFIA CANSADO

Começou há alguns anos, mas em Portugal ainda se fala pouco, acho eu. O que é que tu podes aqui explicar, resumir o que é que são, na verdade, os nómadas profissionais.

 

  • ANDRÉ FERRÃO

Olha eu, dentro da área tecnológica, onde é o recruto que nós lidamos mais com nómadas digitais, perfis tecnológicos que não têm propriamente uma localização física. E aquilo que eles fazem é um pouco não ter uma residência física e estarem a viajar, ou por diversas cidades da Europa ou por cidades também em Portugal. E que executam o seu trabalho 100% remoto, portanto, gostam dessa liberdade de poderem trabalhar para uma empresa que lhes permite estar a viajar enquanto trabalham ao mesmo tempo. Portanto, e isso é algo que nós com a questão da pandemia e cada vez mais com a remotização do trabalho temos vindo a ter. Portanto, eu diria que é cada vez mais uma prática e uma maneira de trabalhar direcionada para aquilo que será o nosso futuro profissional.

 

  • SOFIA CANSADO

Acaba por não ser a mesma coisa, ou seja, nómadas, trabalhadores remotos. Achas que acaba por se difundir os dois modelos?

 

  • ANDRÉ FERRÃO

Eu acho que a flexibilidade é a palavra de ordem, no nosso modelo de trabalho atual e que será uma palavra muito utilizada no futuro. Nós, enquanto fazemos trabalho remoto, gostamos da flexibilidade de trabalhar a partir de casa. O nómada digital já é uma evolução deste cenário, desta realidade. É alguém que não tendo uma residência física ou tendo uma residência física, opta por trabalhar e viajar ao mesmo tempo. E lá está, há profissões que pelo seu, pelo carácter das funções que têm associadas permitem-no fazer e permitem trabalhar remotamente. E acredito que isso seja cada vez mais uma realidade e uma aposta que as empresas têm que fazer, porque vai equilibrar aquilo que é o nosso Work-Life Balance. Portanto, podermos fazer aquilo que gostamos, que é viajar, e ao mesmo tempo trabalhar e cumprirmos as nossas obrigações.

 

  • SOFIA CANSADO

Claro. Tu vês as empresas a recrutarem mais nómadas profissionais? Já se vê isto em Portugal?

 

  • ANDRÉ FERRÃO

Olha, eu diria que depende das empresas. Ok? Eu diria que nós também estamos um bocadinho atrasados nesse aspeto, em relação a outros países do mundo, que não temos ainda tanta abertura. Mas acho que a COVID-19 veio mudar um pouco as mentalidades e as coisas estão um bocadinho diferentes. Mas eu vejo cada vez mais o desejo dos candidatos de terem essa possibilidade. São bastantes candidatos que eu falo e que um dos tópicos é trabalho 100% remoto, e também já tive candidatos que me colocaram esta questão: "André, eu estou a pensar daqui a 4 - 3 meses fazer um tour pela Europa ou pela América Latina, e eu gostaria de saber se a empresa permite o trabalho 100% remoto e que eu esteja a trabalhar de diferentes países, e se mesmo a política da empresa, os contratos preveem isso, o seguro de saúde, todas as cláusulas preveem essa possibilidade. Eu acredito que é assim, nem todos nós vamos querer ser nómadas digitais, mas se a empresa se adaptar e der essa possibilidade a quem o quer fazer, não havendo quebras de desempenho, eu acho que é uma boa possibilidade. Eu acho que vai ajudar quem gosta deste tipo de estilo de vida, digamos assim.

 

  • SOFIA CANSADO

Tu achas que este modelo de nómadas tem o potencial, e aqui estou a arriscar o que eu vou dizer, mas tu achas que os nómadas profissionais têm aqui quase um modelo que poderia ser, daqui a uns anos, da mesma forma que empresas recrutam outsourcing, recrutar nómadas neste mesmo modelo de negócio?

 

  • ANDRÉ FERRÃO

Eu acho que depende das empresas e pode ser uma possibilidade, Sofia. O tema que tu levantas acontece que cada vez mais nós vamos, dentro daquilo que é o mercado de trabalho, vamos tendo diferentes maneiras de fazer o nosso trabalho e diferentes pessoas e candidatos com diferentes tipos de necessidades. E as empresas têm que estar abertas para essa possibilidade, sob forma de perder vantagem competitiva no mercado, porque se existe uma necessidade, existe uma procura por candidatos por um determinado regime de trabalho, as empresas devem adaptar-se. Eu não sei se isto vai ser assim, se vamos ter empresas específicas de recrutamento, como temos hoje em dia para outsourcing, para trabalho temporário, para PERM, se vamos ter só empresas especializadas em recrutamento de nómadas digitais. Mas acho que as empresas devem pensar dentro daquilo que é o seu modelo e o contrato de trabalho e as cláusulas que têm no contrato, se a pessoa assim o desejar, não sei a tempo inteiro ou porque não alguns meses, a pessoa poder fazer um trabalho, não estando na sua casa, portanto, sendo nómada e estando a viajar e ao mesmo tempo a executar um trabalho e não havendo aqui quebra de produtividade, acho que não será um problema. Porque cada vez mais aquilo que nós somos orientados a fazer é nós estarmos orientados à tarefa. Portanto, o horário normal 9 - 18 já não funciona. As pessoas querem flexibilidade, querem liberdade, querem, sabem que têm que entregar, sabem a responsabilidade e têm que o fazer. Agora, se a pessoa faz em Portugal, ou na China, ou em Angola, não é, acho que não é tão importante. E nesse aspeto, lá está, se não houver a necessidade de a pessoa estar fisicamente, ou em horário específico, que a pessoa também não possa, que possa ajustar-se não acredito que seja um problema, nesse aspecto. E acho que é mesmo, são novas formas de trabalhar e novos modelos que no futuro certamente vão vingar. Ou seja, nós há um tempo atrás, Sofia, nós falávamos do trabalho remoto mas 1 dia a partir de casa...

 

  • SOFIA CANSADO

Sim, sim.  Que era um fenómeno já em 2019, 1 dia, uauu!

 

  • ANDRÉ FERRÃO

E agora nós estamos habituados a fazer 100% remoto, nalguns casos, a maior parte mais remoto do que presencial. E adaptámo-nos, e seguimos em frente e resultou. Portanto, novas formas de trabalhar, como os nómadas profissionais, acho que é uma tendência, que é uma moda que vai ficar e esta é uma tendência que vai aumentar no futuro. Lá está, as pessoas têm a flexibilidade de viajar, fazer aquilo que gostam, e ao mesmo tempo cumprir as obrigações e trabalhar.


 

  • SOFIA CANSADO

Se nós fizéssemos aqui um perfil de um nómada profissional. Quais é que achas que são aqui as áreas mais predominantes, qual é o perfil que tu consegues aqui ou ainda é muito cedo para fecharmos aqui o perfil típico de um nómada?

 

  • ANDRÉ FERRÃO

Tipicamente, eu conheço duas áreas onde eu lido bastante com nómadas digitais, que tem a ver com a área de Social Media e Marketing, e área de IT, pelas funções que executam permitem-no fazer e permitem trabalhar de diversos países, em horários completamente diferente daquilo que é o normal, 9 - 18, digamos assim. O perfil típico, normalmente, são mais, são pessoas mais jovens, que ainda não têm família, ou seja, não têm, em termos de estrutura familiar, são pessoas que estão ou em início de carreira, ou que já têm alguns anos de carreira, mas que não têm, não são casados, não têm filhos, porque em termos mesmo de organização é mais fácil. Pegam num bilhete de avião e vão viajar, ou então uma caravana e viajam por vários países. Eu tenho tido vários candidatos que me perguntam isso, se haveria essa possibilidade. Se eu acho que a empresa teria ou aceitaria alguém que não estando em Portugal, ou estando em Portugal que daqui a algum tempo possa viajar e trabalhar ao mesmo tempo, se a empresa aceita, se vê isso com bons olhos, se o contrato prevê isso, a questão dos custos, das cláusulas. Portanto, são áreas que permitem fazer e tipicamente são pessoas que estão à procura, lá está, de também ter essa experiência profissional ao mesmo tempo, mas depois também poder viajar, conhecer novas pessoas, novas culturas, que também acaba por ser interessante, acho eu.

 

  • SOFIA CANSADO

E acaba também por ser interessante para a própria empresa que tem esta pessoa com um "know-how" diferente, não é.

 

  • ANDRÉ FERRÃO

Exatamente. Não só o "know-how" técnico, mas também o "know-how" pessoal, em que a pessoa vai também convivendo com pessoas de diferentes países, em diferentes realidades e que vai absorvendo diferenças, absorvendo experiências, digo, que vai não só para a própria experiência pessoal, como experiência profissional da pessoa. Também acho que isso acaba por ser interessante.

 

  • SOFIA CANSADO

Sem dúvida. Tu achas que isto, este modelo acaba por ser uma resposta, e acho que também já respondeste um bocadinho, mas é uma resposta para a atração de talento. As empresas podem ver aqui uma solução face à escassez?

 

  • ANDRÉ FERRÃO

Eu diria que sim, eu diria que sim. A palavra de ordem para as empresas, como eu  te disse há pouco, no que diz respeito à retenção e atração de talentos é a flexibilidade e a liberdade das empresas também se adaptarem às necessidades daquilo que as pessoas procuram e do mercado. Nós estamos atualmente numa era que é a era do talento e da guerra de talentos, em que as empresas precisam de profissionais e todas competem por atrair e por reter os melhores talentos e as empresas que estejam abertas e disponíveis para modelos de trabalho mais modernos, mais flexíveis, como o trabalho remoto ou mesmo a questão dos nómadas digitais, recrutando pessoas que não estão a viver em Portugal e que trabalham a partir de outros países, ou mesmo pessoas que estão em Portugal, mas que pretendem ter um estilo de vida nómada, acho que vai ajudar nesse caso a poderem preencher as necessidades que eles têm na questão do talento e isso, Sofia,  explica-se que é muito mais fácil, não é. Se a empresa precisa de talento, a empresa vai, precisa de estar aberta a encontrar o talento onde o talento estiver e acho que se nós nos fecharmos àquilo que é a realidade portuguesa e àquilo que é o trabalho 9 - 18, ou o trabalho em escritório, isso vai-nos limitar bastante. Da experiência que eu tenho atualmente no recrutamento, quão mais inflexíveis as empresas são, no que diz respeito à questão do horário, aos perfis a recrutar, mais difícil é recrutar para elas. Portanto, temos que abrir portas, temos que abrir novas possibilidades em termos de recrutamento. E isso vai trazer mais valias quer para as empresas, quer para os candidatos.

 

  • SOFIA CANSADO

Sem dúvida, sim. André, eu acho que, para além desta parte das empresas, também é interessante pensar na parte do profissional, mesmo. Ou seja, se eu agora estivesse numa entrevista contigo e te dissesse que agora gostava de experimentar o modelo de nómada, qual é que era as tuas dicas para eu, de certa forma, me posicionar como um profissional com mais vantagem para a empresa? Quais eram aqui as tuas dicas?

 

  • ANDRÉ FERRÃO

Eu acho que, acima de tudo, a pessoa tem que, pronto, primeiro e antes de mais, abordar a empresa para essa possibilidade, ou numa entrevista de emprego depois explicar as vantagens que tem e as vantagens que tem para a empresa do fato de terem uma pessoa que está ou viver noutro país e a viajar para outros países, ou vivendo em Portugal, que vai viajar e conhecer novas realidades. Foi aquilo que falamos há pouco, Sofia, a pessoa acaba por trazer novas experiências de vida que depois se transformam em conhecimento e aporta um valor para a empresa. Então, nesse sentido, acho que se trata um pouco de desmistificar aquela ideia de que o nómada digital é alguém que só quer viajar, só quer aproveitar, só quer conhecer pessoas novas e ir a sítios diferentes. Será uma parte, obviamente, do objetivo dessa pessoa, mas a pessoa também vai entregar, e vai fazer e vai continuar a trabalhar à mesma. Portanto, vai fazer o seu trabalho à mesma. Portanto, aquilo que as pessoas têm que explicar é qual é que é o propósito e porque é que a pessoa se pretende ou se identifica com este modelo de nómada digital e, lá está, muitas profissões pelo caráter e as tarefas associadas à mesma permitem-no fazer. Então, acho que as empresas têm que abrir a cabeça, abrir mentalidades e perceber "Ok, eu gosto desta pessoa, eu gosto deste profissional, mas esta pessoa pondera e tem este estilo de vida ou quer adotar este estilo de vida, porque não pensar nessa possibilidade e abrirmos as portas a este profissional?". E acho que esse é o caminho. A partir do momento que nós começarmos e as empresas começarem a olhar para essa realidade com outros olhos, e a ver isso como uma possibilidade e não como um obstáculo - "Ai, meu Deus, a pessoa não vai estar aqui em Portugal, ou não vai poder vir ao escritório", mas olharem para a pessoa como um profissional qualificado, vai viver diferentes experiências de vida que vai estar e conhecer outros países, outras culturas e que também depois vai agregar nessa experiência para o trabalho, para aquilo que é o contacto no dia-a-dia com os colegas, com aquilo que têm que executar. Acho que se a pessoa cumprir as suas entregas, não há problema nenhum da pessoa não estar no escritório, ou não estar em Portugal, desde que ambos estejam felizes e a empresa de certeza que vai contar com um profissional mais feliz, uma pessoa que está satisfeita por a empresa respeitar o estilo de vida que a pessoa optou por ter e a pessoa de certeza que não vai querer desiludir a empresa e a aposta que eles fizeram, e vai entregar uma boa solução.

 

  • SOFIA CANSADO

Muito bem. Eu acho que já tivemos aqui um bocadinho da introdução o que é que é este modelo de trabalho de nómadas profissionais e eu acho que cada vez mais vamos ouvir sobre este tema. Cada vez mais as áreas diferentes que referiste, Marketing, Social Media e IT, mas tenho a certeza que nos próximos anos outras áreas vão ver a vantagem de terem nómadas a trabalhar e, portanto, de certeza que esta tendência vai crescer. André, obrigada.

 

  • ANDRÉ FERRÃO

Sem dúvida, Sofia. Só para dizer que sim, é uma questão do mercado se adaptar. É uma questão do mercado abrir mentalidades, de testarem esse modelo. Porque não? Se os candidatos o querem, não é, se os profissionais o procuram, porque não as empresas olharem para isso como uma possibilidade e depois poderem adotar esse modelo e se resultar, expandir-se a outras áreas. É como tu disseste, eu acho que vai continuar a crescer novas formas de trabalhar, novos modelos de trabalho, cada vez mais flexíveis e orientados à tarefa e a pessoa sabe o que tem que fazer, sabe o que tem que executar e entregar, e tudo o resto acaba por ser secundário. Portanto, acho que é importante que as empresas também olhem para outra, de outra forma, para o remoto, para o flexível, para o digital, para os nómadas. E que vejam isso como uma mais valia e não como um obstáculo.

 

  • SOFIA CANSADO

Sim, sim. É isso mesmo, André. Obrigada por teres estado aqui comigo hoje a falar sobre este tema. A primeira vez que falamos sobre este tema, mas de certeza que não vai ser a última.

 

  • ANDRÉ FERRÃO

Não vai ser a última, de certeza. Sim.

 

  • SOFIA CANSADO

Obrigada e também obrigada a todos os que nos ouvem. Se houverem nómadas por aí, identifiquem-nos, porque nós só agora é que começamos a falar disto, mas vamos continuar. E já sabem que voltamos quinzenalmente com os nossos episódios e podem-nos acompanhar nas nossas redes sociais: Facebook, Instagram e LinkedIn. Obrigada! E até daqui duas semanas.

 

 

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