A OrCam Technologies é uma empresa israelita que actua no sector da Saúde e Inteligência Artificial. Em muitos dos países em que está presente, desenvolve a sua actividade contanto com colaboradores internacionais, que trabalham remotamente a full time. Fabio Rodriguez, OrCam country manager de Portugal e Espanha, explica como funciona este modelo e as suas vantagens e desvantagens.

Entrevista a Fabio Rodriguez, OrCam Country Manager de Portugal e Espanha
 

Em que consiste a actividade da OrCam?

A OrCam Technologies é uma empresa israelita, especialista em soluções de assistência de visão baseadas em inteligência artificial. 
A empresa foi fundada em 2010, nos primeiros cinco anos apenas houve desenvolvimento de produto, tendo o primeiro surgido em 2015 – OrCam My Eye –, porque um familiar de um dos fundadores tinha problemas de visão.
Com a MobilEye, a antiga empresa criada pelos israelitas Amnon Shashua e Ziv Aviram, os empreendedores tinham desenvolvido um sistema de prevenção de colisões e direcção autónoma, cuja tecnologia tinha por base câmaras em veículos. O desafio do familiar veio nesse sentido: adaptar a câmara que já tinham desenvolvido para algo que pudesse ser usado por ele, no dia-a-dia, para colmatar os seus problemas de visão. Esta tecnologia tornou-se em algo mais pequeno, mais humano, e agora, por causa daquele familiar, milhares de pessoas podem ter uma vida mais normal. 
O OrCam é o único dispositivo portátil de tecnologia de assistência que é capaz de seguir o olhar do utilizador, permitindo uma utilização mãos-livres. Combina o poder da visão artificial com um dispositivo do tamanho do seu dedo, adequado para qualquer pessoa, de qualquer idade ou nível de visão. Em 2019 foi considerado uma invenção do ano pela revista “TIME”.
A OrCam Technologies é agora um unicórnio no sector da inovação na saúde, avaliado em mais de um mil milhão de dólares, tendo novos produtos em desenvolvimento, como o OrCam Read, que serão lançados ainda este ano.

Desde quando a OrCam actua em Portugal e como tem sido a sua implementação e crescimento no País?

Estamos em Espanha desde 2017 e chegámos a Portugal em 2019. A nossa estratégia para o mercado português tem como objectivo principal aumentar a qualidade de vida de milhares de pessoas. 
De acordo com a Associação Promotora do Ensino dos Cegos, em Portugal existem aproximadamente 163 mil pessoas que não vêem. Já os Censos 2011 estimavam que, no total, cerca de 900 mil cidadãos portugueses têm dificuldades de visão. Estes números têm tendência a aumentar nos próximos anos devido ao envelhecimento da população e a outros factores como o aumento da diabetes. Portanto sabíamos que existia necessidade deste produto.
As nossas perspetivas para o mercado português são positivas, pois estamos a evoluir a um ritmo muito interessante e temos já uma boa rede de contactos e parceiros. 

Quantas pessoas integram a equipa de Portugal e Espanha? Têm equipa "fixa" em Portugal? 

Não temos escritórios físicos em todos os países e, portanto, na maioria dos países, contamos com representantes, como é o meu caso, que coordenam a actividade com os distribuidores e com as agências de relações públicas locais, para dar a conhecer e vender o produto.
O nosso modelo de negócio funciona com base em distribuidores: os interessados na solução vão ao nosso site e preenchem um formulário. Depois é-lhes indicado o distribuidor mais perto, onde o cliente pode demonstrar o aparelho e, se quiser, adquiri-lo. O distribuidor é também indicado para dar formação acerca de como o OrCam MyEye deve ser utilizado e, por isso, o conhecimento dos distribuidores acerca do produto é importante para garantir o melhor serviço para os clientes.
Em Portugal, um dos principais distribuidores é a Ataraxia, uma empresa especializada na importação de soluções de avançada tecnologia para apoio aos problemas da visão.

Em que consiste o modelo organizacional da OrCam?

Para esta tecnologia estar disponível ao público, a empresa conta com 130 funcionários de R&D dedicados a desenvolver software, algoritmos e hardware. Estes funcionários e os top managers encontram-se na sede, em Israel, e temos colaboradores internacionais da OrCam no mundo inteiro. 

Actualmente fala-se muito em teletrabalho devido à pandemia, que obrigou à adopção dessa prática, mas na Orcam é desde sempre uma realidade a full-time…

A Orcam é, desde o início e no seu core, uma empresa com uma cultura muito techie e muito direccionada para as novas tecnologias e, por isso, o teletrabalho acabou por ser uma opção natural, que facilitou a expansão para diferentes mercados. 
Isto acaba por possibilitar uma maior liberdade aos colaboradores, podendo escolher onde viver e decidir como organizar a sua vida laboral diária, tendo apenas que coordenar o trabalho com a sede, em Israel. 

Mas como funciona exactamente? Os colaboradores – todos – não têm nunca de ir ao escritório? 

Temos três situações na OrCam: primeiro existe a sede, em Israel. Aqui temos muitos colaboradores de Research & Development (R&D) que têm de trabalhar presencialmente a maioria do tempo, já que são funções muito direccionadas para a investigação e para o desenvolvimento de tecnologia. No entanto, têm a opção de ficar a trabalhar de casa, caso seja necessário.
Depois também temos escritórios em mercados maiores, como os Estados Unidos (EUA), o Reino Unido e a Alemanha, mas as pessoas só se deslocam ao escritório se sentirem essa necessidade. Na Alemanha, por exemplo, temos escritório, mas as pessoas trabalham em casa na mesma, apenas se deslocando para algumas reuniões.
Os trabalhadores internacionais, que se encontram espalhados no resto dos países, trabalham em casa ou num co-work e não têm necessidade de se deslocar a nenhum dos escritórios. 
 

Quais as vantagens desse modelo?

De uma perspectiva de negócio isto é muito vantajoso para crescer rapidamente. A OrCam é uma startup e teve início há apenas 10 anos, e por isso, ter colaboradores internacionais sem ter escritórios traz a vantagem de poder crescer num país sem esse custo de infraestruturas.
Por outro lado, esta é uma óptima maneira de recrutar talento local, que compreende bem a cultura e a maneira como o negócio se pode adaptar a cada país. 
 

E desvantagens, consegue identificar algumas?

A principal desvantagem é que, apesar da internet e das ferramentas tecnológicas estarem muito avançadas, o contacto presencial é, em certas situações, insubstituível e nem as reuniões online os e-mails conseguem totalmente satisfazer essa necessidade. 
Ainda assim, a OrCam tenta colmatar esse desafio ao organizar vários encontros ao longo do ano entre os vários colaboradores remotos, para que essas questões sejam agilizadas de modo mais simples.

Como trabalham temas como a motivação, o engagement ou a cultura organizacional?

Temos várias iniciativas que promovem a motivação e o engagement na OrCam, como uma newsletter interna e chamadas semanais com as nossas equipas e partners, para que todos estejamos a par das iniciativas de cada um, entre outros. 
A nível europeu, temos reuniões presenciais duas a três vezes por ano, para consolidar a nossa estratégia e encontrarmos formas de colaborar entre países. Este ano fizemos uma em Março, mesmo antes da pandemia e estamos a tentar organizar uma nova no final do ano - mas tudo dependerá da progressão da COVID-19. 
Também uma vez por ano, fazemos uma reunião de todos os colaboradores mundiais da OrCam – que são mais de 200 –, em que colaboradores da China, Austrália, EUA e Europa se reúnem em Israel. Durante três a quatro dias, discutimos e reforçamos a estratégia da empresa e consolidamos a nossa cultura organizacional através de actividades de team-building.

Considera que é preciso um "perfil" específico para se adaptar a esta forma de trabalho, que exige, eventualmente, mais disciplina e responsabilização? Que características diria que são fundamentais?

Não considero que seja preciso ter um perfil específico para nos adaptarmos a esta forma de trabalho, mas é sem dúvida necessária disciplina e responsabilização acrescida quando se trabalha num modelo constantemente remoto. 
Existem algumas características que devem fazer parte desta forma de trabalho, para maximizar o seu sucesso:

  • Definir rotinas: É necessário manter a agenda o mais demarcada possível e tentar respeitar esse plano. No meu caso, dedico as manhãs às chamadas e videoconferências e as tardes ao trabalho mais “mecânico” e a apresentações. Sempre que possível, almoço longe do local onde trabalho.
  • Ter listas “to do” para cada dia: Definir prioridades e alocar energia e recursos aos projectos de maior importância é chave, tal como comunicar essas prioridades às equipas, para que todos estejam alinhados. Sempre achei muito importante ter duas listas: uma com as tarefas do próprio dia e outra com as questões-chaves para a semana.
  • Optimizar as chamadas de controlo: Ao início, passava muito tempo em chamadas de “controlo” para ter a certeza que as equipas de marketing, os distribuidores e as equipas de relações públicas estavam a par de tudo, mas rapidamente percebi que chamadas semanais ou mesmo mensais são mais eficazes para todos. 
  • Arranjar espaço de trabalho cómodo: É fundamental ter um espaço adequado ao tipo de trabalho que desenvolvemos – seja em casa, num coworking ou num café –, e esse lugar deve ter alguns elementos-chave que o tornem ideal para o nosso trabalho. 
  • Organizar a agenda em função dos horários de cada local: Ao trabalhar com Israel e Portugal, trabalho com dois fusos horários diferentes, que, apesar de não serem muito díspares, implica ter alguma flexibilidade no horário de trabalho. Adicionalmente, em Israel trabalha-se de domingo a quinta-feira pelo que tenho que ter isso em conta.
  • Servir-se da cloud para quase tudo: Uma das grandes vantagens actuais, das quais nos servimos muito, é a facilidade com que se partilham documentos e apresentações com pessoas em diferentes locais, através do Google Docs, por exemplo.

Essa “característica” inerente torna-vos mais ou menos atractivos aos olhos dos candidatos?

Como a maioria dos nossos candidatos e colaboradores são millennials, nas casas dos 20 e 30 anos, procuram essa flexibilidade de trabalho, pelo que temos bastante facilidade em recrutar pessoas dispostas a trabalhar de casa.
Adicionalmente, somos um unicórnio e estamos num sector – tecnologia na saúde e inteligência artificial – atractivo, pelo que temos muita gente à procura de emprego connosco, o que é óptimo.

Quais os pilares estratégicos da política de Gestão de Pessoas da OrCam?

Um dos grandes pilares da nossa política de Gestão de Pessoas é permitir um equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal, daí a flexibilidade de trabalho ser um factor tão importante. 
Além disto, consideramos que cultivamos uma importante proximidade entre cargos, ou seja, é muito fácil falar com pessoas mais sénior, já que todos se mostram disponíveis para dar conselhos e aprender. Isto facilita a comunicação entre qualquer colaborador na sede e uma política de “porta aberta” entre os vários países. 

O que acredita que os vossos colaboradores mais valorizam?

Penso que os nossos colaboradores valorizam o sentido de “ownership”. As equipas nos países são relativamente pequenas e estamos responsáveis por bastantes funções. Isso confere o sentimento de que podemos marcar a diferença e que somos uma peça importante na empresa.

E a si, o que o motiva?

Ao ser responsável de todo o negócio em Portugal e Espanha, tenho bastantes responsabilidades a meu cargo, como mediar distribuidores, coordenar com os nossos parceiros de relações públicas, discutir estratégia com o marketing digital e, portanto, quando temos grandes conquistas é ainda mais satisfatório.

Nestes novos modelos de trabalho também se exigem novas formas de liderança, concorda? Em que se consubstancia esse "novo tipo" de liderança?

Concordo, sem dúvida. É necessária uma combinação de soft skills e hard skills neste tipo de liderança. Desde logo, é preciso ter perspicácia para o negócio, saber negociar com distribuidores e aprender a liderar à distância, o que não é fácil. É aqui que soft skills como empatia, flexibilidade e adaptabilidade entram, até para ser capaz de coordenar trabalho entre diferentes culturas.


Que tendências perspectiva para o mundo do trabalho? Acredita que a COVID-19 veio definitivamente mudar a forma como trabalhamos e nos relacionamos?

Nesta nova normalidade, aqueles que vão estar em vantagem são os que saibam encontrar um equilíbrio entre a produtividade e a realização pessoal. O teletrabalho, seja total ou parcial, é uma tendência que continuará a crescer nos próximos meses e anos, e trará mais coisas positivas do que negativas. Além de aumentar o período de vida laboral, como já asseguram os experts, vai possibilitará vantagens como a poupança nos deslocamentos e uma melhor conciliação e maior flexibilidade horária.
 

entrevista a
Fabio Rodrigues

Fabio Rodríguez

orcam country manager de portugal e espanha