O tech4COVID19 surgiu, a 13 de Março. Com cerca de 45 fundadores da comunidade tecnológica portuguesa, hoje conta já com mais de quatro mil voluntários. Já desenvolveram 10 projectos para apoiar as várias necessidades que têm surgido com a pandemia COVID-19 e angariaram mais de 100 mil euros. E ainda agora começaram.

 

Como e em quanto tempo foi criado o tech4COVID19?


O tech4COVID19 surgiu, a 13 de Março, da iniciativa de alguns fundadores da comunidade tecnológica portuguesa, que estavam a debater como cada um poderia ajudar o país, os profissionais médicos e a população a combater esta pandemia. Tudo começou num grupo de WhatsApp e, em apenas 24 horas, passou para um canal de Slack com mais de 150 pessoas. Ao fim de dois dias, já éramos mais de 300.  

Com quantas pessoas/ startups conta agora?


O movimento começou com cerca de 45 fundadores de startups portuguesas e, actualmente, contamos com mais de 4000 voluntários de mais de 200 empresas. Muitas outras empresas também estão a apoiar a iniciativa ao colaborarem na angariação de fundos para aquisição de material médico, por exemplo. No entanto, este é um movimento de pessoas, acima de tudo.

E o vosso objectivo/ ambição, também evoluiu?


O objectivo inicial, e que ainda hoje se mantém, é apoiar o país nas várias necessidades que surgiram com esta pandemia. No fundo, estamos a colocar o talento nacional – programadores, gestores de projecto, designers, marketeers, advogados, entre outros – ao dispor do país. 
Por um lado, temos as necessidades dos profissionais de saúde, que se reflectem na aquisição de material de protecção médica, na recolha de informação do estado da população, ou em serviços que cuidem dos seus animais, entre outros. 
Por outro lado, o isolamento forçado da população obriga a uma série de novos hábitos que nem todos estão prontos a responder, como fazer as compras e encomendas online, como manter a actividade escolar em casa, saber de antemão a fila dos serviços presenciais para podermos evitar aglomerados de pessoas, ter acesso a informação fidedigna sobre o vírus e o seu impacto, entre outros.

Em concreto, quantos projetos já desenvolveram desde que esta iniciativa foi criada?


Actualmente, já foram lançados cerca de 10 projectos, sendo que estão em desenvolvimento outros 30. Este número tem aumentado de dia para dia, à medida que mais pessoas se juntam ao movimento e trazem ideias para endereçar novas necessidades identificadas.

Pode esclarecer em que consistem alguns deles e que resultados já alcançaram?

 

- STOP COVID-19 é uma campanha de angariação de fundos para adquirir e doar equipamentos médicos em falta a centros de saúde e hospitais, para o tratamento e controlo da COVID-19. Numa primeira fase, procurou-se angariar um mínimo de 100 mil euros para aquisição de máscaras, luvas, fatos e óculos de protecção, que garantam a protecção individual dos profissionais de saúde, assim como um ventilador. 
Uma semana depois do seu lançamento, a dia 17 de Março, a campanha ultrapassou a meta proposta, tendo já angariado mais de 108 mil euros. Já garantiu duas encomendas de material de protecção médica, que incluem 58 mil máscaras FFP2 e mais de 2000 óculos de protecção (no valor total de 97 500 euros). Uma parte deste material já foi doado no Sábado. 
No entanto, entretanto, conseguimos identificar uma nova oportunidade de compra de mais 50 mil máscaras FFP2 (no valor de 67 500 euros) e foi estabelecido um novo objectivo de 185 mil euros. A esta nova encomenda adicionam-se ainda os custos de logística total de todas as encomendas, no valor de 20 mil euros, que resultam na necessidade de angariar os 85 mil euros extra.

WeMoveIt disponibiliza um serviço de entregas entre amigos e família para facilitar o transporte de roupa, comida, medicamentos ou outros objectos que necessitem de ser trocados durante o período de contingência e isolamento social. Este serviço é feito através da LUGGIT, aplicação móvel de recolha e entrega de bagagens, e qualquer pessoa o pode requisitar preenchendo o formulário neste link. 
Estando disponível para já na Grande Lisboa e Grande Porto, o objectivo é crescer para outros pontos do país, contando com todos aqueles que, de forma voluntária, se queiram juntar ao movimento e tornarem-se “keepers”. Para isso, basta enviar um e-mail para wemoveit@luggit.app. Cada deslocação tem a taxa fixa de 2,5 euros, valor que reverte totalmente para o keeper, de modo a suportar os custos.  
Desde o seu lançamento, o serviço já chegou às 10 entregas. 

Rooms against Covid-19 é uma plataforma criada para promover o alojamento a profissionais de saúde que não querem arriscar contagiar membros da família ou que se encontram deslocados do local de residência. Criada em parceria com a empresa GuestCentric e HiJiffy, está aberta a inscrições de hotéis e alojamentos locais, através deste formulário, e de profissionais de saúde, que deverão fazer a sua reserva em www.roomagainstcovid.com. A base de dados do projeto conta já com 1200 quartos de 250 hotéis e empresas de alojamento local. 109 profissionais de saúde já conseguiram alojamento. 
Este projeto decorre de uma parceria e coordenação com várias entidades, incluindo a Associação do Alojamento Local em Portugal (ALEP), que ficará agora encarregue da gestão da plataforma Rooms against Covid-19, o Turismo de Portugal e os grupos do Facebook ‘Alojamentos Locais - Esclarecimentos’ e ‘Proprietários de Alojamento Local’.

Vídeochamadas gratuitas com médicos. As startups Better Now, KnoK Healthcare e Zaask juntaram-se ao Movimento tech4COVID19 e desenvolveram soluções para a prestação de cuidados de saúde primários gratuitos através de vídeo-consultas. Disponibilizam gratuitamente serviços de telemedicina para o apoio a casos suspeitos de COVID-19, de modo a que não seja necessário a estes pacientes deslocarem-se a unidades de saúde. 
Desde o lançamento deste serviço, já foram realizadas 80 consultas.

Material hospitalar é um projecto cujo objectivo é angariar equipamentos de protecção individual (EPIs), ventiladores e testes de despiste ao COVID-19, de modo a suprir necessidades urgentes de material hospitalar em Portugal. Todo o processo é garantido por um grupo de 200 pessoas que voluntariamente asseguram o cumprimento da cadeia de valor, funcionando como uma corporação capaz de identificar, encomendar, comprar material e entregá-lo às Administrações Regionais de Saúde (ARSs) para posterior distribuição pelas diferentes unidades de saúde do país, em função da carência e urgência. 
Para além das ARSs, o projecto está em articulação com o Infarmed, de forma a garantir a certificação necessária dos materiais produzidos. Adicionalmente ao apoio de diversas entidades de saúde, o projeto conta ainda com o apoio de 10 instituições de investigação científica e está já a recolher EPIs que permitam a segurança necessária para os profissionais de saúde. 
Desde a data do seu lançamento, a 23 de Março, foram oferecidos à plataforma mais de 144.000 EPIs.

Tools4Edu é uma plataforma de apoio à comunidade educativa (professores, alunos e pais), cujo objectivo é facilitar a compreensão e utilização de ferramentas digitais no processo de ensino. Além de disponibilizar tutoriais, o website  Tools4Edu tem um espaço para partilha de experiências e boas práticas, de forma a que tanto o corpo docente como os alunos consigam tirar o melhor proveito das tecnologias existentes. A plataforma, gratuita e sem fins lucrativos, conta ainda com uma equipa de apoio disponível para esclarecer dúvidas e dificuldades de todos os envolvidos. 
Desde a data do seu lançamento, a 24 de Março, o site teve já 550 visitas.

ANIMALAR é uma iniciativa que pretende sensibilizar os portugueses para a relação dos animais de companhia com o novo coronavírus, uma estirpe que não é transmitida aos animais, e evitar o abandono animal. O website do projecto apresenta várias associações, empresas de pet sitting ou hotéis para animais que podem ajudar a cuidar de cães e gatos de profissionais de saúde ou de pessoas em internamento, assim como várias perguntas e respostas informativas sobre como passear os animais na rua, de que forma é que os tutores devem proceder com o animal caso estejam infectados, entre outras. 

Como se estão a coordenar com as entidades competentes, nomeadamente para direccionar essas ajudas... Ou, qual é o critério que usam para escolher os beneficiários?


Da nossa parte, garantimos que todo o material angariado é entregue a entidades responsáveis pela sua distribuição, nomeadamente às Administrações Regionais de Saúde, que identificam prioridades e nos permitem entregar o material a quem mais precisa. No entanto, quando fazemos a ponte com uma instituição doadora que identificamos, por exemplo, pode ser essa instituição a definir onde o material será entregue. No entanto, damos sempre prioridade a que o seu destino seja decidido pelas ARS.

Qual dos projetos diria que está a ser mais "bem sucedido"/ mais útil/ mais utilizado?


É difícil definir qual será mais útil, uma vez que todos têm propósitos diferentes e, neste momento, toda a ajuda é uma excelente ajuda. Acreditamos que todos terão um impacto muito positivo, cada um à sua maneira, e isso é o mais importante.

Qual foi mais difícil de implementar?


Há sempre dificuldades em todos os projectos, seja de comunicação, tracção ou desenvolvimento. Cada um dependendo das suas particularidades. No entanto, até agora, temos conseguido tirar partido do facto de sermos mais de 4000 e todos temos imensas valências e conhecimentos para as ultrapassar.

Disse que têm em desenvolvimento mais 30 projectos…


Sim, de momento, estamos a desenvolver cerca de 30 projetos para apoiar a população e as entidades de saúde nas diferentes frentes que têm actualmente. Vamos divulgando no website e nas páginas sociais do movimento à medida que eles ficam disponíveis e prontos a serem utilizados. 

Todas estas iniciativas foram implementadas num curtíssimo espaço de tempo. O que é extraordinário. Seria útil esta entreajuda e mobilização continuar a existir, pois, quando passar a pandemia, outros problemas vão continuar a subsistir... O que pensa sobre este tema?


No movimento tech4COVID19, estamos constantemente a identificar novos desafios e a pensar em soluções para os ultrapassar, que, neste momento, estão obviamente relacionados com o desafio que temos à nossa frente. Sabemos também que ainda há muito trabalho a fazer e que os problemas não acabam quando terminar o isolamento, por isso, contamos continuar a trabalhar para apoiar a sociedade e ajudar a que a transição para a normalidade seja o mais suave possível. 
Estamos muito concentrados nisto e é aí que investimos energia. No entanto, também temos noção do valor que tem este projecto e do que estamos a conseguir construir, por isso, depois disto, com certeza avaliaremos a continuidade deste projecto – com mais calma. 
 

entrevista a
this is a man

filipe ávila da costa

porta-voz do tech4covid19 e ceo da infraspeak.