missão: pensar fora da caixa

Entrevista a Marie Kolle, directora para a felicidade na Critical TechWorks

A Critical TechWorks foi criada em Outubro de 2018, resultando de uma joint venture entre a portuguesa Critical Software e a alemã BMW. Em menos de um ano de existência, a empresa conta já com cerca de 500 pessoas. E até 2021 pretendem chegar aos mil. Tanto contratam recém-graduados como profissionais séniores, com 30 anos de experiência. Não diferenciam idades ou certificações, mas sim aquilo que as pessoas trazem para a empresa; não procuram apenas as competências técnicas, mas também as competências pessoais, nomeadamente bom humor; e os interesses e bem-estar dos colaboradores são assegurados não por uma direcção de Recursos Humanos mas por uma direcção para a Felicidade.

O que levou à criação da Critical TechWorks e em que consiste exactamente a vossa actividade?

Tal como a maioria das empresas hoje em dia, a BMW está a dar muito ênfase à transformação digital do seu negócio. Durante muitos anos, a empresa tem reunido talentos de todo o mundo para criar novos serviços e produtos que moldam uma nova era da indústria automóvel e, durante esse processo, uma das perspectivas mais promissoras foi a criação de uma joint venture com a Critical Software, uma empresa pioneira na inovação de software que desafia a norma, com pessoas com experiência e acostumadas a pensar fora da caixa.

 

Que objectivos pretendem atingir?

O nosso objectivo é transformar a BMW numa empresa de tecnologia de mobilidade. A principal tarefa da Critical TechWorks será o desenvolvimento e a operação de soluções de software de ponta, em várias áreas. Empregando métodos ágeis de desenvolvimento, os especialistas da joint venture usarão os dados do BMW Group para criar modelos de negócios inovadores e desenvolver produtos baseados no seu conhecimento. A gama de inovações estende-se desde soluções de infotainment no carro e serviços digitais, a sistemas de transporte autónomos para produção, plataformas de vendas e pós-vendas digitais, e soluções altamente integradas para gestão de dados de produtos.

 

Quais têm sido os vossos principais desafios?

Acho que o processo de criação de uma empresa traz consigo vários desafios. Temos de imaginar uma empresa recente, com um ano de existência, que ainda cria as suas estratégias e processos internos, mas que já é um grande empregador em Portugal, com quase 500 colaboradores. Considerando que a Critical TechWorks foi criada a partir de sistemas estabelecidos de longa data de ambas as empresas-mãe, tenho muito orgulho em ver como conseguimos manter o alto nível de autonomia dos nossos colaboradores e criar a nossa cultura corporativa, garantindo que cumprimos todas as metas estabelecidas pelo BMW Group. Nesse sentido, temos a oportunidade de poder experimentar muitas coisas novas, como técnicas modernas e ágeis de trabalho. Exploramos, às vezes cometemos erros, mas aprendemos e crescemos. Tudo faz parte da jornada que uma empresa recente atravessa.

 

Qual o perfil de pessoas que têm recrutado?

Recrutamos pessoas com bom humor! Além disso, temos perfis bastante diversificados, por isso é difícil restringir a um específico. Empregamos pessoas de todas as idades e nacionalidades, promovemos o aumento do número de mulheres em tecnologia e até temos cães nas nossas equipas, porque cada membro que entra pelas nossas portas carrega o seu valor pessoal, que acaba por beneficiar a organização. Temos pessoas com 30 anos de experiência de trabalho e diplomados do ensino secundário a trabalhar juntos em equipas – tem tudo a ver com uma boa mistura de diferentes pontos de vista. O importante é a vontade que cada pessoa tem em aprender e melhorar as suas capacidades. Não procuramos apenas as capacidades técnicas, mas também as pessoais, as chamadas soft skills. Alguém que trabalhe aqui também tem de se ajustar culturalmente e identificar-se com o nosso propósito e valores internos que mantêm a roda a girar.

 

Ter pessoas com mais de 30 anos de experiências e recém-graduados a trabalhar na mesma equipa traz desafios acrescidos? Quais?

Penso que, para alguns, o primeiro desafio é aceitar que, mesmo que estivessem a liderar um departamento no seu emprego anterior, na Critical TechWorks não lhes damos títulos que indiquem superioridade. Durante o onboarding, explico sempre que, para crescer na carreira, um colaborador tem de ter sucesso na sua própria equipa e trazer um efeito positivo aos seus colegas, aos outros departamentos e à cultura interna, até porque estas pessoas influenciam a forma como a sociedade vê a nossa empresa.

Conseguir ter boas relações com toda a equipa e ajudar a nossa comunidade é um factor fundamental para ter sucesso individual na Critical TechWorks.  Este é um sistema muito diferente da maioria das outras empresas porque não diferenciamos idades ou certificações, por exemplo, mas sim aquilo que as pessoas trazem para a empresa.

 

Que competências/ características têm tido maior dificuldade em encontrar?

Até ao momento, temos a felicidade de ter encontrado os perfis que precisamos e que contribuem para o crescimento da Critical TechWorks. Mas, no geral, gostava de ver mais mulheres. Estamos a tentar criar um equilíbrio entre homens e mulheres, mas, infelizmente, na nossa indústria ainda não existem muitas developers femininas para ajudar ao equilíbrio desta balança.

 

Recrutar 500 pessoas em tão curto espaço de tempo, e na área em que actuam, onde as empresas se debatem com uma crescente escassez de talento, e sendo uma empresa recente e eventualmente pouco conhecida, será um grande desafio. Como o têm assegurado? Onde e como recrutam?

Acho que hoje, mais do que nunca, a atracção de talento passa por tratar bem as pessoas que já trabalham na empresa. Com o rápido crescimento que vivenciamos, é cada vez mais importante focarmo-nos nas pessoas que trabalham connosco durante mais tempo e garantir que crescem e não se sentem desvalorizadas com 30 novas pessoas a entrar todos os meses. Temos de cuidar bem da nossa cultura interna e não cometer o erro de deixar os nossos planos futuros ofuscarem o presente, e acho que este é o segredo do nosso sucesso. Porque o talento vai escolher trabalhar onde vê que as pessoas estão felizes, onde vê uma organização da qual se quer tornar parte devido à sua autenticidade. Então, o meu foco enquanto directora de Felicidade é criar um ambiente do qual os novos talentos querem fazer parte, e o talento existente quer falar aos seus amigos e colegas fora da empresa, porque gostam genuinamente de trabalhar aqui.

 

O que acredita que vos distingue e atrai os profissionais para vir trabalhar com vocês?

Na minha opinião, somos uma das empresas mais modernas no mercado português. E o facto de termos directores de Felicidade mostra que levamos o bem-estar dos nossos colaboradores muito a sério. Tão a sério quanto os nossos números financeiros ou estratégias externas.

A chave é nunca nos sentirmos confortáveis com o que foi criado. Seria ingénuo acreditar que não precisaremos de alinhar novamente os nossos valores e redefinir o nosso propósito quando passarmos de 500 para 1000 colaboradores, meta que contamos alcançar até 2021. Se quisermos que se identifiquem com o seu trabalho, precisamos de lhes dar continuamente a oportunidade de se envolverem nos processos de tomada de decisão, quer estes os afectem directa ou indirectamente. Precisamos também de considerar o feedback das pessoas e não continuar a trabalhar com “o que funcionou em tempos”, porque vivemos no século da mudança e estamos sempre abertos a fazer alterações.

 

O que os vossos colaboradores mais valorizam? O salário continua um factor importante?

Acredito que o vencimento mensal é um factor importante para reter o talento, mas não determinante para a boa relação entre o empregador e o colaborador ou para a sua continuidade na empresa. Daquilo que temos experienciado, posso dizer que, além do salário, que fica em segundo plano em comparação com muitas outras variáveis, os funcionários valorizam os desafios, as relações com os colegas, a possibilidade de aprender e, acima de tudo, o bom ambiente de trabalho. 

 

Considera Portugal um país atractivo para trabalhar? Porquê?

Tendo em conta que sou uma alemã que escolheu Portugal como a sua casa mesmo antes de trabalhar na Critical TechWorks, poderia dar-lhe um vasto rol de razões pelas quais prefiro trabalhar e viver aqui. Mas uma das principais razões para a BMW abrir um novo negócio aqui é a qualidade do talento português. Há muito talento altamente qualificado neste país, pessoas que falam inglês perfeitamente e, além disso, são suficientemente curiosas para se conectarem com os outros e expandirem as suas habilidades, ou até mesmo inventar novos produtos e serviços. Ao mesmo tempo, estamos na União Europeia, por isso, é fácil conectarmo-nos sem ter um choque cultural completo, como grandes diferenças de horário, de legislação ou outros desafios que possam ocorrer noutros países.

 

Qual o maior desafio na gestão das actuais quase 500 pessoas?

Actualmente, acho que é o espaço físico. Estamos a equilibrar a necessidade de as pessoas terem um ambiente de trabalho agradável, que facilite as suas tarefas diárias, potencie o bom humor e optimize o espaço que será utilizado por outras equipas, que ainda irão entrar.

 

Que áreas assumem como prioritárias no que respeita à Gestão de Pessoas?

O nosso departamento de Recursos Humanos está separado do de Felicidade. Trabalhamos próximos, mas um lado trata dos assuntos mais administrativos e o outro do bem-estar e da cultura interna. Com isto conseguimos trabalhar de forma mais próxima, através de um tratamento holístico da necessidade que as pessoas têm em todos os tipos de situações relacionadas à Gestão de Pessoas. As prioridades mudam de semana para semana, já que tentamos resolver os desafios rapidamente e outros novos estão constantemente a surgir.

 

O que faz, em concreto, uma directora para a felicidade?

Enquanto directora de Felicidade, estou responsável pela implementação e incentivo à prática dos valores da empresa, seguindo aquilo que chamamos de roteiro para a felicidade. Além disso, projectamos e implementamos políticas corporativas que impactem positivamente o bem-estar dos colaboradores e criem um ambiente de trabalho agradável, como a organização e decoração do espaço de escritório.

Criamos também vários eventos e iniciativas de motivação para fortalecer as equipas e promover o bem-estar individual, convidando especialistas, e elaboramos e executamos planos de envolvimento dos colaboradores na empresa, tal como a construção de programas de gestão de colaboradores, com o objectivo de melhorar constantemente a sua experiência e desempenho.

Também faz parte da minha função a gestão do programa de desenvolvimento e revisão da Critical TechWorks, onde apoio activamente as equipas nas áreas de gestão de talentos, revisões de desempenho e transições de colaboradores.

 

Que resultados conseguem perceber dessa aposta?

Do meu ponto de vista, o resultado mais óbvio é que, com a minha função, permito que a empresa tenha em consideração os interesses dos seus colaboradores. Um gestor de Recursos Humanos está sempre vinculado à estratégia das empresas e às metas que uma equipa de gestão estabelece em relação aos custos de pessoal, entre outras coisas. No meu caso, estou focada nos colaboradores, estou lá para os representar, porque a empresa é feita pelos seus colaboradores e o sucesso é baseado nos seus esforços. Portanto, sou uma espécie de facilitadora, fazendo com que a relação entre empresa e colaborador se torne viável. Considero que trabalho para os colaboradores da Critical TechWorks e para a nossa cultura. Isto é uma diferença importante.

 

Quais os principais desafios que perspectivam, quer em termos de negócio, quer de Gestão de Pessoas?

Temos sempre de ver as coisas com um olho crítico, perceber o que podemos acrescentar aos colaboradores e o que, em última instância, vai ajudar ao bem-estar da empresa. É um trabalho muito criativo, pois, como envolve criar uma cultura, há sempre potencial para fazer coisas novas. Actualmente, o tratamento e as oportunidades que uma empresa oferece aos seus colaboradores são o mais importante. Um outro critério relevante é o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, seguido de perto por oportunidades de carreira e educação contínua. Especialmente os colaboradores mais novos, que estão à procura de um empregador que lhes ofereça oportunidades de progresso na carreira, mas que lhes dê espaço para poder desfrutar dos seus tempos livres.

 

Como pretendem assegurá-lo?

Do nosso lado, a principal preocupação é conseguir manter as nossas iniciativas, fazer um trabalho positivo para todas as pessoas da empresa e evitar o isolamento de colaboradores. Isto é especialmente importante numa empresa como a Critical TechWorks, que está em constante crescimento e que dá as boas-vindas a novos colaboradores todos os meses.