Ser uma mulher CEO, ainda para mais no sector das Tecnologias da Informação, ainda não é comum. Isabel Reis é uma das excepções que confirma a regra. Garante que nunca sentiu nenhum tipo de discriminação, mas reconhece que a tendência é para entregar oportunidades de cargos de gestão a homens. 

 

A directora-geral da Dell Technologies Portugal, responsabilidade que também assume em Espanha, acredita que a liderança feminina traz balanço à gestão de uma empresa. Enquanto líder, privilegia sobretudo: «a capacidade de motivar e levar as equipas a acreditarem no caminho certo; liderar por influência e não pela autoridade; ser vista como um elemento que privilegia a justiça e que não mente à sua equipa; e que, mesmo em tempos difíceis, consegue levar a companhia, numa espécie de espírito de missão, a cumprir um determinado objectivo.»

Tem vasta experiência na área tecnológica. Não é a área mais comum para as mulheres, havendo ainda hoje em dia grande discrepância/ desiquilibrio para o lado masculino nesta área? Como surgiu este interesse?
Surgiu por acaso. A minha formação é em Marketing e surgiu uma oportunidade para trabalhar na Comunicação de Marketing da Oracle quando abriram a subsidiária em Portugal em 1990. Achei o projeto muito interessante e foi assim que comecei a minha caminhada nas TI’s [Tecnologias de Informação].

E permaneceu no sector, liderando hoje uma empresa de Tecnologia. O que identifica como principais aprendizagens no seu percurso?
Resiliência, resistência à pressão, gosto pela área comercial e, principalmente, gosto na gestão de Recursos Humanos.

Qual a importância que para si, enquanto directora-geral, assume a Gestão de Pessoas?
Toda. As pessoas são a base fundamental para o sucesso de qualquer projecto. É impossível alcançar o sucesso sem ser em equipa. E conseguir atrair e reter talento, é hoje um dos principais requisitos de um gestor. 

A escassez de profissionais de perfis tecnológico tem, de facto, sido identificado com um dos principais desafios das empresas actualmente. E não só nas Tecnológicas. Como estão a dar resposta a esta realidade?
Investindo nos jovens que começam o seu percurso académico e criando condições de trabalho capazes de atrair e reter os jovens. E antecipando os perfis que prevemos vir a serem necessários.  

O que acredita que, actualmente, os profissionais mais valorizam na altura da contratação?
A capacidade de adaptação, criatividade, auto motivação e interesse por aprender. 

E em termos de retenção, o que considera que tem maior relevância?
Formação, bom ambiente de trabalho, mobilidade e espirito de pertença a algo.

O que mais valoriza enquanto líder?
A capacidade de motivar e levar as equipas a acreditarem no caminho certo. A capacidade de liderar por influência e não pela autoridade, porque a autoridade e o respeito conquistam-se, não se impõem. Ser vista como um elemento que privilegia a justiça e que sobretudo não mente à sua equipa. E que mesmo em tempos difíceis, consegue levar a companhia, numa espécie de espírito de missão, a cumprir um determinado objectivo.

Alguma lição de liderança que recorde e aplique no seu dia-a-dia?
Elogia-se em público e repara-se em privado. Sempre!

Tem experiência em liderança em ambientes internacionais. Nomeadamente, desde Junho de 2017 que acumula a liderança da Dell Technologies Portugal com Espanha. Que desafios acrescidos isso trouxe?
Muitos. A humildade para ter a resiliência e a paciência necessárias para ganhar uma nova equipa, num país diferente onde não conhecia os clientes, nem tinha o domínio da língua como tenho do português ou do inglês. Ganhar o respeito com trabalho – muito trabalho –, conhecer antes de julgar, perceber antes de actuar, aprender e perguntar antes de assumir.

Alguma vez sentiu, profissionalmente, algum tipo de discriminação, nomeadamente no cargo que actualmente ocupa?
Nunca. Embora há 20 anos, por princípio, não se pensava numa mulher logo à partida para desempenhar um importante cargo de gestão.

E sente que o facto de ser mulher a coloca - ou colocou - em desvantagem, para desempenhar a sua função? Ou, perguntando de outra forma, alguma vez teve que optar entre "privilegiar" a vida pessoal em detrimento da profissional ou vice-versa?
Não. Mas julgo que esse é um caminho que somos nós que o traçamos, mais do que o sistema.

Apesar de vários estudos revelarem que a presença de mulheres em cargos de liderança traz efeitos positivos para a receita, a criatividade e a produtividade das empresas – um relatório da ONU quantifica que os resultados melhoram até 20% –, casos como o da Isabel continuam a ser uma minoria, ainda para mais no seu sector. Por que acha que isso acontece, e persiste?
Esta é uma resposta difícil de dar de forma sucinta, mas tem a ver com muitas variáveis: o número menor de mulheres nesta indústria, a dificuldade em conciliar a vida profissional com a vida pessoal, os enormes níveis de pressão e a tendência para entregar oportunidades de cargos de gestão a homens.

Traz algum desafio acrescido o facto de liderar uma empresa mundial de TI?
Tem. A indústria é das mais competitivas do mercado e sujeita a constantes mudanças e necessidade de adaptação. É uma indústria em constante evolução.

Que particularidades tem a liderança no feminino, se é que existem?
Trazem balanço à gestão de uma empresa. Trazem complemento. Previsibilidade, conciliação, criatividade feminina – que complementa a masculina –, ou espirito de equipa, por exemplo.  

Acredita que as quotas nas administrações são a solução para o problema?
Acredito que ajudam e que são um mal necessário... Mas o critério na contratação deve ser bastante rigoroso, para não dar azo a más interpretações.

O que acha que se podia fazer para começar a haver mais mulheres nas áreas das STEM [Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática]?
Começar o recrutamento nas faculdades. Criar condições que permitam que as mulheres não tenham que optar entre serem mães ou terem uma família e trabalhar nas TI’s.

Quais diria que são actualmente os vossos principais desafios?
Diria que a principal qualidade para trabalhar nesta indústria, além das capacidades normais necessárias a um gestor e ao trabalho numa área comercial, é a capacidade de adaptação e de viver bem num ambiente de elevada pressão.

Que objectivos pretendem alcançar, quer em termos de negócio, quer de Gestão de Pessoas?
Crescimento. Ganhar quota de mercado, ser uma das empresas mais relevantes do sector.

entrevista a
isabel reis

isabel reis

directora-geral da dell technologies portugal