«Atualmente, o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, as progressões de carreira, a par do salário e benefícios inerentes, acabam por pesar mais do que a estabilidade na carreira na hora da decisão», acredita Carla Esteves, diretora executiva da Aqui é Fresco.

 

Entrevista a Carla Esteves, Diretora Executiva Aqui é Fresco

 

A rede Aqui é Fresco (AeF) abriu as primeiras lojas em Janeiro 2011, como uma organização voluntária desenvolvida pela Unimark, com o objetivo de abastecer pequenos retalhistas e fazer frente aos grandes distribuidores nacionais. «Considerada atualmente a maior cadeia de comércio independente em Portugal, a Aqui é Fresco arrancou com 113 lojas, número que, ao longo de 10 anos, foi aumentando até atingir, em 2020, um total de 727 super e minimercados distribuídos a nível nacional», faz notar Carla Esteves, destacando: «Oferece, desde há precisamente uma década, as garantias de confiança e compra acertada junto dos milhares de clientes, que todos os dias acorrem a estes estabelecimentos de proximidade com a insígnia Aqui é Fresco.» A responsável fala da importância do comércio de proximidade e também de como a pandemia está a afetar – ou não – a estabilidade do negócio e a estabilidade profissional.

                              

No 10.º aniversário, o que destaca no vosso percurso?

O lema “Perto e de Confiança” traduz, de forma simples e inequívoca. o nosso objetivo e a forma como estamos e crescemos nesta área de negócio. Pretendemos com isto transmitir, de forma transparente e genuína aquilo que somos e representamos. Pretendemos estar perto dos consumidores, na porta ao lado ou na esquina em frente, com a certeza de que nos conhecem pelo nome e confiam em nós.

Todos os intervenientes neste negócio – sociedade, grossista e retalhista –trabalham em verdadeiro espírito de equipa, onde tudo acontece num ambiente único de sólida confiança.

Neste nosso percurso, para além do crescimento sustentado que temos vindo a consolidar, não podíamos deixar de referir aquele que foi considerado um dos pontos altos da nossa história, a 10.ª Convenção anual AeF, primeira convenção digital da rede de comércio de proximidade e do retalho nacional. Este evento, considerado a reunião magna anual da AeF, ponto de encontro de mais de 1500 intervenientes, não deixou, mesmo em ano de pandemia, de acontecer e proporcionar a todos os seus clientes, fornecedores, associados e inúmeros convidados, este momento de negócio e convívio, ímpar neste sector.

 

 

Qual a importância que a AEF assume atualmente, quer para a economia nacional, quer, sobretudo, para a economia local, através da promoção do comércio tradicional?

O comércio tradicional, de proximidade, tem cada vez maior importância para a economia nacional, mas principalmente local. Como já referido, este último ano de pandemia, veio alterar, por completo, os hábitos dos consumidores.

Com o levantar gradual das restrições, alguns padrões de comportamento serão retomados, mas muitos hábitos anteriormente existentes serão alterados. As grandes compras mensais foram substituídas por deslocações mais regulares, e em menor quantidade, no estabelecimento da rua, do bairro, sem necessidade de grandes deslocações, ajuntamentos e as inevitáveis filas de espera para pagamento.

Outro fator diferenciador do comércio de proximidade e que atualmente assume ainda mais importância – a alimentação saudável, de qualidade, os frescos e os produtos tradicionais – mantém-se como uma tendência reforçada neste contexto de pandemia. A par de tudo isto, o facto de a maioria de nós estar cada vez mais sensível a atento às questões de segurança e higiene alimentar, veio contribuir para uma consolidação do comércio de proximidade.

Não podemos também deixar de referir que, devido ao agravamento da situação económica, a competitividade do preço praticado nas lojas AeF, devido ao grande poder negocial da sociedade, é seguramente um fator diferenciador e de consolidação deste negócio e, consequentemente, da economia local.

Por último, a preocupação com a sustentabilidade e a preferência por produtos locais, são igualmente fatores diferenciadores e que justificam o sucesso do comércio de proximidade.

 

Sendo uma rede constituída por centenas de lojas independentes, de que forma trabalham com os vossos retalhistas de forma, por exemplo, a dar-lhes ferramentas e métodos de trabalho que potenciem o seu sucesso?

Efetivamente, o acordo existente entre a sociedade Aqui é Fresco e as centenas de lojas independentes, é formalizada de uma forma muito simples, destacando-se de seguida alguns compromissos.

O retalhista compromete-se em participar nas atividades promocionais da rede, como folhetos e outras ações de marketing, ter a marca própria UP da Unimark ou a do armazenista através do qual aderiu ao projeto.

Para além das atividades comerciais, também é um parceiro que apoia em termos de formação, tecnologias, fornecedores de equipamentos e outras necessidades que lhe sejam colocadas.

Os investimentos iniciais dos comerciantes que aderem são baixos, já que têm apenas de garantir a adesão à atividade promocional da rede e utilizar algum material informativo no interior do ponto de venda. Assim mesmo, e porque um dos nossos objectivos passa por alargar a “mancha de lojas com imagem” existente a nível nacional, a Aqui é Fresco, bem como o respetivo Cash & Carry, comparticipa com um determinado valor.

 

Também intervêm ao nível das políticas e práticas de Gestão de Pessoas? O que consideram fundamental neste âmbito?

Não, tratando-se de estabelecimentos independentes, os lojistas continuam a ser donos do seu negócio. A política de gestão de Recursos Humanos é da exclusiva responsabilidade de cada uma das lojas.

No entanto, a nossa intervenção passa por estarmos atentos, com uma atitude vigilante, no sentido de detetar alguma infração ou situação que possa lesar a dignidade da marca, intervindo de imediato, com o desvincular da relação comercial existente.

Existe igualmente um aconselhamento técnico, em termos de planogramas e layout de loja, fornecimento de equipamentos vários, consumíveis e fardamento, sempre com o objetivo de dignificar o negócio do parceiro e da marca que representamos.

 

No total, a rede emprega cerca de 3000 pessoas. O comércio local tem sido dos mais afetados durante esta pandemia. Como têm ajudado os vossos retalhistas?

Com esta situação de pandemia, a rede Aqui é Fresco reorganizou-se e reinventou-se. Vivemos, todos, uma realidade jamais imaginada, mas as adversidades despertam capacidades que, em circunstâncias normais, teriam ficado adormecidas. Realizámos todos os esforços para conseguir dar resposta ao aumento de procura, que registámos tantos nas nossas lojas da Rede Aqui é Fresco, como nos cash’s dos nossos associados.

Desde a primeira hora que apoiámos e incentivámos as nossas lojas a adotarem uma serie de medidas, por forma a irem ao encontro das necessidades mais básicas dos seus clientes.

Períodos de crise aceleram mudanças, pelo que, a maioria passou a disponibilizar serviços até à data inexistentes, como as entregas ao domicílio, rececionadas por telefone, email, redes sociais, entre outras.

Especialmente para os grupos de risco, esta foi uma enorme mais-valia, pois, em curto espaço de tempo, garantimos as entregas, no conforto do seu lar.

Nestes tempos difíceis e sem prazo para acabar, com as compras online em ascensão, temos perfeita consciência de que as pessoas são, e serão sempre, a nossa mais-valia e uma parte fundamental da nossa cadeia de logística. Por mais que se automatizem os processos, o comércio de proximidade nunca irá abdicar disso.

Também por essa razão acreditamos que os portugueses não irão abdicar do comércio de proximidade. Iremos, pois, acompanhar a inevitável ascensão do online, apostando nessas ferramentas, mas sem nunca descurar o fator humano, caraterística ímpar da nossa forma de estar neste mercado.

 

A atual realidade afetou, inevitavelmente a estabilidade no sector. Nos últimos tempos parece que tinha sido algo relegada para "segundo plano", destacando-se a flexibilidade. A pandemia veio mudar isso ou, na realidade, a estabilidade sempre teve importância para os profissionais portugueses?

Na nossa área de negócio, não sentimos que esta pandemia nos tenha afetado financeiramente, de forma muito significativa. Já em contextos sociais e comportamentais, seguramente que sim. Tivemos efetivamente de ser mais flexíveis e adaptarmo-nos a uma realidade jamais imaginável.

Mesmo com todas as adversidades, e porque a “máquina” – rede de lojas AeF e Cash’s – está e estava bem oleada, conseguimos mostrar o quão flexíveis conseguimos ser, sem afetar a estabilidade dos nossos Cash’s, em termos dos seus recursos humanos. Não houve necessidade de dispensar colaboradores, nem de um plano para reforçar equipas. Foram mantidas as existentes, as quais trabalharam por turnos, para assegurar o normal funcionamento da empresa, por vezes com grande esforço individual. Foram duplicadas as linhas de pedidos, feita uma reposição constante, ampliados os horários, e intensificadas as ações destinadas à mercadoria de primeira necessidade. Nos serviços centrais optou-se por estabelecer equipas de trabalho paralelas, permitindo que realizassem a sua aividade em teletrabalho. Foram ainda canceladas as reuniões externas e a insígnia está a optar por videoconferências, como sistema de comunicação alternativa.

O facto de estarmos a lidar com um “inimigo sem rosto”, sem conhecemos exatamente quais as reais consequências e o que esperar do futuro, trouxe enormes dúvidas e medos, que nos transformaram a todos. Resta saber, se para melhor. O futuro o dirá!

 

Mas, afinal, do que é que depende a estabilidade? Do tipo de contrato? Da empresa? Do setor? Da conjuntura?...

Em nosso entender, a estabilidade depende, inevitavelmente, de fatores externos, como a área de negócio onde estamos inseridos e, consequentemente, a conjuntura que vivemos. No entanto, a empresa pode ter um papel fundamental na estabilidade do indivíduo, ou falta dela.

O empregador, tal como o empregado, têm direitos e obrigações. O primeiro pode reservar-se ao direito de comprovar se o segundo preenche os requisitos para os quais foi contrato, mas tem, igualmente o dever de reconhecer os seus profissionais e não protelar situações de incerteza.

Pessoas motivadas e seguras contribuem para o sucesso e estabilidade de qualquer empresa.

 

Atualmente fala-se muito se fala de flexibilidade e trabalho remoto. Não sendo, neste âmbito, possível o último, inviabiliza a primeira? Diria que isso afeta a atratividade do sector para trabalhar?

Entenda-se por flexibilidade a suscetibilidade de nos adaptarmos às mudanças e às circunstâncias do momento. Trabalho remoto, aquele que pode ser desempenhado em qualquer lugar.

No nosso caso em particular – retalho alimentar – obviamente que não pode ser desempenhado remotamente. No entanto, e como já sublinhado, demonstrámos uma enorme flexibilidade, conseguindo reorganizar-nos e reinventar-nos, perante esta nova realidade, em nada prejudicando a atratividade do nosso modelo de negócio. Demonstrámos que nos piores momentos, conseguimos adaptar-nos, oferecendo serviços alternativos, para conseguir servir, sempre, e com a qualidade que nos carateriza, os nossos consumidores.

 

O que acredita que hoje é mais valorizado pelos profissionais? O salário emocional está a ganhar terreno ao salário efetivo?

Nos últimos 10 anos, o chamado salário emocional, tem sido cada vez mais reconhecido pelas empresas, por ser entendido como benefícios que são oferecidos pela empresa e que não são diretamente relacionados ao ganho financeiro do profissional.

O salário efetivo, por vezes generoso, nem sempre é sinónimo de satisfação profissional. Quanto a mim, o valor do reconhecimento e a sensação de bem-estar, não tem preço.

Defendo, no entanto, que o salário emocional deve ser um complemento do salário tradicional, por meio de estímulos e motivações, que não podem ser representadas monetariamente.

É no entanto curioso registar que, se por um lado, nem todas as empresas têm capacidade de pagar grandes ordenados, menos ainda têm a capacidade de conceder o verdadeiro salário emocional. Para isso é preciso existir: uma hierarquia horizontal; um maior nível de autonomia dos seus colaboradores; uma comunicação clara e efetiva entre gestores e demais colaboradores; flexibilidade de horários, para que o trabalho se adeque à rotina do colaborador e não o contrário; plano de carreira claro; ambiente de trabalho positivo; e sensação de pertencer efetivamente à empresa em que trabalha. É uma equação muito difícil de obter, na maioria das empresas portuguesas.

 

E para as empresas, a valorização da estabilidade profissional é bom ou mau?

Acredito que, há alguns anos, a permanência prolongada numa empresa, era uma opção clara na tomada de decisão da maioria, sendo um indicador claro da preferência pela estabilidade.

Atualmente, a estabilidade de carreira já não pesa na decisão da maioria dos portugueses. O equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, as progressões de carreira, a par do salário e benefícios inerentes, acabam por pesar mais na hora da decisão.

Está, pois, nas mãos das empresas, valorizar e manter os colaboradores que aportam valor.

 

Quais os principais desafios que se perspetivam, para profissionais e empresas, sobretudo no sector em que atuam?

Ativar fortemente o online, ajustar os sortidos existentes e estar atento às mudanças da era pós-covid-19, pois estas mudanças acontecem diariamente e serão para ficar.

 

entrevista a
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Carla Esteves

diretora executiva aqui é fresco