Ao fazer uma reflexão sobre a proposta de valor, comecei por pensar o que realmente queremos dizer quando falamos em proposta de valor, até porque podemos aplicar esta expressão a empresas e a pessoas.

De forma muito simples, diria que podemos definir a proposta de valor como o conjunto de características, competências e capacidades que nos permitem diferenciação face aos outros. 

Partindo deste ponto, uma das minhas primeiras reflexões assenta no caráter dinâmico que a proposta de valor (quer de empresas quer de profissionais) tem de ter.  De facto, a nossa capacidade de nos diferenciarmos resulta da conjugação de características inatas, mas sobretudo da soma ou do acumular de aprendizagem (académica e não só), de experiências pessoais e profissionais que nos enriquecem e ajudam a adquirir ou desenvolver novas competências, cuja combinação nos permite ir evoluindo na capacidade de enfrentar desafios e responder com sucesso  às diferentes realidades com que nos deparamos. 

Às pessoas, quer no plano pessoal, quer no plano profissional, cada vez mais se requer que sejam capazes de enfrentar novos e mais exigentes desafios. Às empresas também se exige que consigam evoluir e antecipar as exigências dos seus mercados, e nem mesmo as que trabalham em mercados menos competitivos podem dar-se ao luxo de “se instalar” numa realidade (supostamente) confortável.

 A pandemia que nos afeta há mais de um ano, pelo seu impacto global, é uma demonstração prática disto mesmo, elevando a exigência de muitos desafios que achávamos que tínhamos dominado:  fazer compras, acompanhar os filhos, conciliar a vida pessoal com a profissional, gerir equipas, contactar e acompanhar clientes, viajar...  podíamos continuar a enumerar exemplos! Abalou a nossa estrutura sem qualquer pré-aviso...

Ora, as pessoas e as empresas cuja proposta de valor inclua resiliência, agilidade, flexibilidade e capacidade de adaptação partiram com vantagem para este imenso desafio. Não quer dizer que tenha sido ou esteja a ser fácil... mas a probabilidade de uma pessoa (ou uma empresa) se abater perante a adversidade deste contexto será tão menor quanto maior for a sua capacidade de se adaptar e a flexibilidade de aceitar novas formas de fazer as coisas (mesmo as mais banais e rotineiras que nos custa abandonar). E a probabilidade de aproveitar este momento potencialmente adverso para o transformar numa oportunidade de fazer algo positivo, crescer ou evoluir, será tão maior quanto maior for a amplitude da sua visão, a sua criatividade e o seu foco em pensar a solução em detrimento do foco no problema.

E isto leva-me a um segundo ponto: awareness! É muito importante, enquanto pessoas e profissionais, termos consciência de qual é a nossa proposta de valor e de que modo ela nos pode ajudar a ser bem sucedidos nos vários planos da nossa vida. A consciência dos nossos pontos fortes deve ajudar-nos a procurar tirar deles o máximo partido, mas a noção dos aspetos ou competências que temos de desenvolver permite-nos estar alerta e procurar melhorar ou evoluir constantemente.  

Esta consciência e autoconhecimento não é fácil (e, por isso, muitos candidatos tentam contornar habilmente a tradicional pergunta “porque é que deve ser o/a candidato/a selecionado/a?”): vivemos a alta velocidade e facilmente nos deixamos ir ao ritmo das inúmeras solicitações, tarefas e responsabilidades  que nos retiram  disponibilidade para fazer estas reflexões. Além disso, a generalização e constante utilização das redes sociais, em idades cada vez mais jovens, também não facilita este processo, na medida em que pode desviar o foco do autoconhecimento para o que socialmente é mais popular e sujeita a um escrutínio público tudo o que se partilha.  

Em contrapartida, e também pela via das redes sociais mas não só, há hoje uma maior facilidade de acesso a profissionais, instituições, ferramentas que nos podem ajudar e devemos procurar encontrar o espaço/tempo para tirar partido dessas possibilidades. 

Outro fator importante que me parece pouco falado no tema da proposta de valor é a sua potencial universalidade. Sim, na minha opinião, todos podemos ter a nossa proposta de valor. Não é algo exclusivo de certo tipo de empresas nem algo apenas acessível a profissionais qualificados. Qualquer pessoa, por mais básica que seja a sua instrução e as funções que ocupa, tem uma proposta de valor e pode destacar-se na forma como age na sua vida e desempenha a sua função.  E todos queremos cruzar-nos com pessoas e profissionais capazes de nos surpreender pela qualidade que nos apresentam ou pela forma especial como nos encaram.

Parece-me, no entanto, que a consciência da importância desta proposta de valor e da necessidade de a enriquecer ao longo da vida é menor em profissionais com níveis de qualificação mais baixos. E, se é certo que a principal responsabilidade por criar a sua proposta de valor é de cada um, a verdade é que não é exclusiva. Pensemos num qualquer  exemplo pessoal de uma tarefa que fazemos todos os dias para ajudar uma ou várias pessoas. Se formos recebendo feedback de como essa tarefa é importante ou como foi bem feita ou até apenas um agradecimento, vamos sentir que o nosso contributo é importante e vamos querer fazê-lo sempre bem e cada vez melhor.Vamos enriquecendo a nossa proposta de valor com a ajuda do reconhecimento que nos é dado. Mas se, pelo contrário, não tivermos qualquer tipo de retorno ou apenas tivermos críticas (especialmente se forem pouco ou nada construtivas), gradualmente vamos sentir que essa tarefa não tem valor e a tendência será para transferir essa falta de valor para nós próprios, o que poderá levar a uma desmotivação e indiferença que não alimenta a proposta de valor e o desejo de a enriquecer.

Diz-se recorrentemente que a empresa são as pessoas. Pode ser uma frase feita, mas, de facto, não deve haver nenhuma empresa cuja proposta de valor não assente na soma das propostas de valor das pessoas que a integram. É certo que existirão elementos mais determinantes que outros e, ainda que me pareça difícil, empresas em que a componente humana possa não ser tão determinante. Mas todas as pessoas que integram uma empresa são importantes (pensemos que na maioria das empresas, por exemplo, a pessoa que faz a limpeza é sempre substituída quando se ausenta... e isso não acontece com todas as funções!) e as empresas também devem ser responsáveis por contribuir para as propostas de valor de todas as suas pessoas.  Não pode haver, em nenhuma instituição, pessoas e funções que são tratadas como invisíveis ou menores. Além de ser uma questão de respeito básico, é fundamental que todos se sintam parte do projeto da empresa, saibam em que medida contribuem para esse projeto, tenham condições para o fazer e sejam reconhecidos quando o seu desempenho corresponde ao que se espera ou supera as expectativas. Este será o nível básico a que a empresa pode juntar outros contributos como, por exemplo, formação ou apoio na realização de formação fora da empresa, criação de um ambiente propício ao networking, à inovação, etc. 

E eu iria mais além... talvez não possamos dizer que a sociedade é responsável pela proposta de valor dos seus indivíduos. Mas a sociedade, e cada um de nós enquanto parte dela, podemos criar condições para que todos sintam que podem criar e enriquecer a sua proposta de valor. Como? Ocorrem-me alguns exemplos: educar as nossas crianças para a consciência da sua proposta de valor, ajudando-as a reconhecer os seus pontos fortes e encorajando-as a superar as suas dificuldades, reconhecer e respeitar todas as pessoas e funções e não permitir comportamentos de indiferença ou menosprezo por qualquer tipo de profissão, ter uma atitude mais construtiva nas críticas (seja quando as fazemos seja quando as recebemos) e uma postura de maior apoio e incentivo para com os outros, independentemente do seu sucesso. No fundo, criar uma dinâmica positiva de respeito, tolerância, entreajuda e incentivo. 

E porque a reflexão já vai longa, terminaria dizendo que nada disto é simples ou fácil. Por vários fatores e circunstâncias. Mas há uma coisa que me parece certa: a atitude fará a diferença! Se eu pensar que a principal responsável pela minha proposta de valor sou eu própria (e não pode ser de outra forma!), vou procurar desenvolvê-la, apresentá-la e defendê-la, independentemente de contar ou não com o apoio e contributo das empresas ou da própria sociedade. E se pensar que, não tendo a capacidade de mudar o mundo, posso pelo menos fazer a diferença no meio onde me insiro, nas pessoas com que me cruzo, causando um impacto positivo, então vale a pena! Porque, pessoalmente, sempre senti que a minha proposta de valor não será uma verdadeira proposta de valor se me servir apenas a mim...

 

artigo por
this is a woman

Carolina Felgueiras

business unit manager, staffing, randstad portugal