sabe lidar com a “carga invisível” do trabalho?

Como autora do livro sobre trabalho emocional “Fed Up: Emotional Labor, Women, and the Way Forward”, Gemma Hartley partilhou, no site da Fast Company, estratégias eficazes para gerir o “peso” extra que muitas vezes se carrega na vida profissional.

 

O tema frequente é sobre a melhor maneira de consciencializar os outros em relação ao trabalho adicional que as mulheres acabam por ter em várias situações.

Gemma partilha que, no final de uma conversa recente, uma mulher cuja situação é demasiado familiar perguntou: «Como falo ao meu chefe sobre isto?» Esta mulher dava por si perante uma equipa de homens que não percebiam o quanto dependiam dela para trabalhos que não faziam parte do seu descritivo de funções: tomar notas, escrever emails com cuidado, acalmar egos, limitar discussões, planear actividades após o trabalho ou estar constantemente disponível. E todas essas coisas estavam a afectá-la e a diminuir o tempo em que poderia estar a fazer as suas tarefas.

Se estão fartos da carga invisível que carregam no trabalho, especialmente se os vossos colegas não estão sobrecarregados com as mesmas expectativas, isso não significa que devam ficar presos a esse ressentimento. Se sentem que não conseguem estabelecer limites mais firmes em relação ao trabalho emocional, é provável que a vossa empresa precise das vossas competências de trabalho emocional. Tudo bem, desde que estejam a ser razoavelmente compensados pela carga de trabalho extra e esta não vos esteja a causar um esgotamento. Se não for esse o caso, está na hora de falar com o seu chefe:

 

- Reconheçam os vossos contributos

Jacinta M. Jiménez, psicóloga e formadora de liderança executiva, recomenda que monitorizem o vosso tempo durante uma semana normal para verem como o trabalho emocional afecta as vossas horas de trabalho. «Isso permite compreender quanto esforço e energia colocam no trabalho emocional e como esse tipo de tarefa pode estar a prejudicar a energia mental que deveria ser usada para o trabalho remunerado.»

Antes de avançar, precisam de ter uma boa noção da percentagem deste trabalho estão a levar a cabo, além de saberem como está a adicionar ou a subtrair valor durante as horas de expediente. Depois de terem uma visão mais concreta do trabalho emocional que realizam, será mais fácil abordá-lo.

 

- Defendam-se a si próprios

Abordar o tema do trabalho emocional no local de trabalho não é tarefa fácil, mas devemos enfrentá-la para que os nossos contributos e esforços sejam reconhecidos e compensados. Todas essas tarefas extras acumulam-se e agregam valor de maneiras que muitas vezes passam despercebidas.

De facto, ao ouvir a mulher a falar sobre o trabalho emocional que realizava diariamente, parecia que ela era a espinha dorsal da sua equipa, garantindo constantemente que não saíam da rota definida devido a pormenores obscuros ou dramas evitáveis no local de trabalho. As suas competências demonstraram uma atenção vital aos pormenores, fortalecimento de equipas e uma visão geral dos projectos seguintes. É o tipo de competências que precisam de destacar se desejam que o vosso trabalho emocional seja reconhecido e valorizado.

«Como o trabalho emocional provavelmente faz parte do vosso trabalho e não está incluído na descrição de funções, pedir ao chefe que o inclua nas futuras análises de desempenho é o primeiro passo. Fazê-lo cria espaço para o reconhecer como uma função formal do seu cargo», explica Jiménez. «As pessoas e os locais de trabalho prosperam quando os colaboradores podem trazer todo o seu “eu” para o trabalho. Recomendo que se fale sobre trabalho emocional em ligação ao ROI (return on investment) do negócio principal, salientando que a criação de uma experiência emocionalmente inclusiva e de apoio aos colaboradores é necessária para o empenho, retenção e desempenho a longo prazo.»

 

- Sejam intencionais

Depois da questão de abordar o tema do trabalho emocional no local de trabalho, agora a questão é quando abordar o assunto com o seu chefe. Nesse sentido, o conselho é o mesmo que se dá às mulheres que desejam iniciar uma conversa sobre trabalho emocional com seus parceiros em casa: não façam isso quando se sentirem frustrados. O trabalho emocional pode prejudicar o vosso tempo, o vosso espaço mental e a vossa energia emocional - por isso, abordar o assunto quando estão no limite nunca é uma boa ideia.

«Descubram o vosso objectivo antes de se encontrarem com o vosso chefe», explica a coach de negócios Julie Melillo. «Querem um aumento, uma promoção, que outras pessoas ajudem a lidar com as personalidades difíceis em questão, ou algo mais? Destacar as vossas competências interpessoais pode ajudar-vos a defender tudo o que foi dito acima, mas não se querem encontrar com o vosso chefe apenas para se gabarem das vossas excelentes competências interpessoais - porque não é algo que as pessoas com grandes competências neste âmbito façam.»

Passem algum tempo a reflectir sobre o que desejam desta conversa. Pensem no cenário geral e elaborem os vossos argumentos antes de irem ao escritório do chefe. Se não tiverem uma visão clara do que desejam da conversa, acabarão por expor as vossas frustrações sem criarem mudanças significativas.

 

- Preparem-se para instruir

«Lembrem-se que muitos executivos não são os mais fortes no que diz respeito à inteligência interpessoal; portanto, podem não entender ou valorizar a importância do vosso trabalho nessa área», afirma Melillo. «Podem precisar de instruir o vosso chefe sobre esse assunto e talvez mostrar algumas estatísticas. A maneira como as pessoas se tratam é factor essencial para o sucesso em todas as áreas.»

Em resumo, preparem-se para fazer um pouco de trabalho emocional, a fim de fazerem com que o vosso chefe entenda e valorize o trabalho emocional. Jonathan Keyser, autor de “You Don’t Have to Be Ruthless to Win”, revela que, provavelmente, devem ver essa conversa como a primeira de muitas.

«Isto é um processo, não um evento único, idealmente alcançado através de várias discussões autênticas, honestas e gentis», explica Keyser. «Muitos chefes precisam de provas, não de histórias. Podem trazer dados de fontes respeitáveis ​​que demonstram o valor (do reconhecimento do trabalho emocional) e, em seguida, explicar como a vossa excelência nessa área tem uma correlação directa com o sucesso da organização.»

 

Ou seja, dêem início à conversa. Vale a pena o esforço de mudar a cultura do local de trabalho para que funcione a vosso favor.