• Procura global por funções especializadas cresce 3 vezes mais rápido do que por funções de escritório, impulsionada pela necessidade de infraestruturas para a Inteligência Artificial.
  • Tempo de contratação de profissionais técnicos (56 dias) já ultrapassa o de profissionais de serviços (54 dias).
  • Apenas 29% das mulheres relatam ter competências em IA (vs. 71% dos homens) e as gerações mais velhas estão a ser deixadas para trás na formação.

O debate sobre o impacto da Inteligência Artificial (IA) no emprego centra-se frequentemente na substituição de postos de trabalho, mas uma realidade crítica está a ser ignorada: a tecnologia está a impulsionar uma procura sem precedentes por talentos técnicos especializados necessários para a treinar, implementar e sustentar. Simultaneamente, a adoção da IA está a criar novas clivagens de género e geracionais que ameaçam agravar a escassez de talento em mercados com populações envelhecidas.

Estas são as principais conclusões divulgadas pela Randstad, através da análise de mais de 50 milhões de anúncios de emprego e de um inquérito a 12.000 profissionais em todo o mundo.

A IA não constrói centros de dados

A expansão da IA exige vastas infraestruturas físicas, desde centros de dados a sistemas de energia. A análise da Randstad revela que, desde o final de 2022, as vagas para engenheiros de AVAC (aquecimento, ventilação e ar condicionado) — fundamentais para o arrefecimento dos centros de dados — aumentaram 67%. A procura por técnicos de robótica disparou 107% e por técnicos de automação industrial 51%.

O pipeline de talento técnico está sob enorme pressão: em média, demora agora mais tempo a contratar um trabalhador de ofícios especializados do que um profissional de serviços (56 vs. 54 dias), assinalando uma inversão no mercado de trabalho global. Esta pressão agravar-se-á com as tendências demográficas, visto que por cada 100 jovens que entram no setor da manufatura, 102 saem, e cerca de um em cada quatro trabalhadores a nível global aproxima-se da idade da reforma.

Mulheres e gerações mais velhas em desvantagem

O novo estudo da Randstad, intitulado “Escassez de talento: o papel da IA na promoção da equidade” alerta que a promessa de maior produtividade da IA só será concretizada se os seus benefícios forem distribuídos de forma equitativa. No entanto, os dados mostram uma realidade fraturada, com implicações sérias para mercados maduros que dependem da retenção de talento sénior para combater a escassez de mão de obra:

Fosso geracional: Menos de um quarto (23%) dos Baby Boomers teve a oportunidade de usar IA no trabalho e apenas 22% receberam formação, em contraste com 45% da Geração Z. As organizações que operam em mercados com maiores percentagens de talento envelhecido terão de apostar na requalificação destas gerações para manterem as suas competências relevantes e superarem a escassez.

Fosso de género: Enquanto 71% dos homens afirmam ter competências em IA, apenas 29% das mulheres dizem o mesmo — uma diferença de 42 pontos percentuais. As mulheres estão severamente sub-representadas em competências especializadas e relatam menor acesso a oportunidades de requalificação por parte dos empregadores.

Sander van ‘t Noordende, CEO da Randstad, comenta: "A revolução digital em curso tem uma base física. Enquanto as manchetes se concentram na IA e no futuro do trabalho de colarinho branco, o verdadeiro obstáculo ao crescimento global é a escassez de talento especializado nos ofícios técnicos. Isto significa as pessoas que constroem os centros de dados, atualizam as redes elétricas e mantêm a infraestrutura que torna a IA possível". 

Sobre o fosso na adoção da IA, o CEO acrescenta: "A escassez de talento é um desafio global significativo, e o acesso equitativo a formação, recursos e oportunidades tem de ser uma parte fundamental da solução. Se não tomarmos medidas ativas para resolver o fosso de equidade que a IA está a criar, o grupo de trabalhadores preparados para o futuro do trabalho será demasiado pequeno — criando ainda mais escassez em todos os setores".

Raul Neto, CEO da Randstad Portugal afirma que “O verdadeiro desafio da IA não é a substituição do trabalho humano, mas os novos desafios que está a criar no mercado. A solução para a escassez de talento passa obrigatoriamente por democratizar o acesso à formação tecnológica. Incorporar e estimular nesta transição, em especial o grupo das mulheres e as gerações mais seniores que demonstram menor adoção, não é apenas uma questão de equidade social, é um imperativo de sobrevivência e crescimento económico para o tecido empresarial nacional.”

A Randstad recomenda que os líderes empresariais adaptem as suas estratégias reavaliando os ofícios técnicos como carreiras de topo, que exigem a mesma aprendizagem contínua que os trabalhadores do conhecimento. Em paralelo, é urgente repensar a requalificação tecnológica, adotando abordagens personalizadas que promovam uma maior adopção por parte das mulheres e dos profissionais mais velhos.