A verdadeira inovação nas organizações nasce da diversidade de perspetivas, mas para atrair talento plural é preciso primeiro derrubar as barreiras invisíveis do recrutamento. Muitas vezes, a escassez de candidatos com incapacidade não se deve à falta de talento no mercado, mas a processos de seleção que, de forma não intencional, excluem perfis altamente qualificados.
Construir uma cultura inclusiva começa muito antes do primeiro dia de trabalho; começa na forma como comunicamos uma vaga e na flexibilidade que demonstramos em cada interação. Neste guia prático, exploramos como transformar o seu processo de recrutamento num percurso acessível, equitativo e focado no que realmente importa: as competências e o potencial de cada profissional.
Neste artigo, vamos explorar:
1. Como escrever anúncios de emprego verdadeiramente inclusivos?
O anúncio é, sem dúvida, a primeira porta de entrada para que um candidato sinta a abertura da empresa aos temas de Diversidade e Inclusão. Através de uma linguagem cuidada e de uma declaração de inclusão ativa, a empresa demonstra que já deu os primeiros passos na construção de um ambiente que valoriza a diversidade de perfis. Mais do que palavras, estes elementos são sinais claros de uma cultura que acolhe a diferença e a transforma em valor.
O que deve evitar em anúncios de emprego
1. Termos que indiquem a preferência por género.
Expressões como “Secretária Executiva” ou “Operador de Armazém” criam uma barreira imediata. Um candidato do género masculino sentirá que não é válido para a primeira, tal como uma candidata poderá sentir que não tem enquadramento na segunda.
Sugestão
Utilize uma linguagem neutra e inclua sempre a indicação (m/f/x) junto à nomenclatura da vaga, garantindo que todas as pessoas se sintam incluídas e bem-vindas.
2. Requisitos preferenciais em conjunto com os requisitos obrigatórios.
Colocar todos os requisitos num único "bolo", sem distinguir o que é mandatório do que é desejável, cria descrições de funções que parecem impossíveis de alcançar. Esta falta de clareza acaba por afastar perfis altamente qualificados que, por não preencherem 100% da lista.
Sugestão
Simplifique ao máximo os requisitos obrigatórios (aqueles dos quais não se pode prescindir) e identifique claramente os requisitos preferenciais como competências que complementam o perfil, sem nunca serem motivo de exclusão.
3. Linguagem de “Super-heróis”.
Termos como “ninja”, “guru” ou “guerreiro” podem desvirtuar completamente a função, especialmente para perfis que interpretam a linguagem de forma literal. No recrutamento de um Analista de Dados, por exemplo, o que se procura é foco e atenção ao detalhe, não um "guerreiro".
Sugestão
Utilize termos simples e claros sobre as competências reais da função. Organize a informação em bullet points e evite o uso de emojis no meio das frases, os leitores de ecrã podem não os interpretar corretamente, dificultando a leitura a candidatos com deficiência visual.
Dica: Declare explicitamente no anúncio que a sua empresa está de portas abertas a qualquer perfil. Encoraje ativamente todos os candidatos a submeterem a sua proposta, seja no início ou no fecho do anúncio. Uma declaração de inclusão ativa é o primeiro passo para uma cultura de diversidade real.
2. Entrevistas sem barreiras: do espaço físico à comunicação?
Hoje em dia, o primeiro contacto com o candidato é quase sempre virtual, seja por chamada telefónica ou e-mail. A meu ver, as barreiras começam exatamente aqui, quando o recrutador ainda não sabe quem está "do outro lado".
O recrutador segue um fluxo de trabalho rígido: analisa a candidatura, tenta o contacto por uma via e, se não obtém resposta, o candidato é muitas vezes rejeitado. Mas será que estamos a chegar a todos os perfis da mesma forma? Num ritmo onde a duplicação ou triplicação de contactos parece inviável, acabamos por perder talentos por falta de flexibilidade nos meios de comunicação. Esta é a primeira grande barreira, muitas vezes invisível para quem recruta.
Falemos de outras barreiras:
acessibilidades físicas e espaciais
Estas são, por norma, as mais fáceis de acautelar porque são visíveis. Pensamos imediatamente em quem se desloca em cadeira de rodas — rampas, elevadores, WC adaptados. Mas será que nos lembramos das sensibilidades sensoriais?
- Uma sala com luminosidade demasiado forte;
- Um espaço de entrevista ao lado da copa, com o ruído constante da máquina de café;
- Uma sala "isolada", mas inserida num open space em constante movimento.
Outro ponto crítico é a clareza do espaço. Estarão as casas de banho e as saídas de emergência bem identificadas para quem visita a empresa pela primeira vez? A acessibilidade plena exige que olhemos para o espaço não apenas com os olhos, mas com todos os sentidos.
Estas são as barreiras invisíveis que muitas vezes passam despercebidas no dia a dia acelerado do recrutamento.
Sugestão
Avalie todo o percurso do candidato, desde a chegada ao edifício até à sala de entrevista. Faça esta checklist:
- Existem degraus? Nem que seja um único degrau, que nunca dei por ele?
- As portas abrem sozinhas ou necessitam de força para empurrar?
- A iluminação é fluorescente ou conseguimos uma sala com luz natural?
- Há sinalização no caminho? Se não, lembre-se de identificar e mostrar as instalações ao candidato enquanto o acompanha.
outras barreiras - comunicação inclusiva
Antecipe o momento da entrevista e reúna os essenciais pelo menos até 24h antes da entrevista:
- Como chegar à empresa? - a pessoa vem de carro ? Precisa de um estacionamento perto pela sua condição motora? É possível estacionar no parque da empresa?
A pessoa vem de transportes públicos? Posso enviar um mapa do local e identificar a porta/portão da recepção? Posso dar dicas, que por exemplo se colocar no google maps a entrada que nos indica neste momento está inativa e que entramos sempre pela rua Y, passará pelo segurança e deve anunciar que vai ter entrevista com a pessoa X”
- Estrutura da entrevista - Identifique os nomes e cargos das pessoas que vão estar presentes na entrevista e se possível desvendar quantas partes terá a entrevista. Por exemplo, vamos iniciar por conhecer o seu percurso profissional e competências e no final irá realizar um teste técnico que deve demorar cerca de X minutos.
- No convite da entrevista - Pergunte se existe algum ajuste ou suporte que possa oferecer para que se sinta mais confortável no momento da entrevista.
A comunicação inclusiva passa por eliminar o fator "incerteza". Antecipe o momento da entrevista e reúna os pontos essenciais, enviando-os ao candidato com, pelo menos, 24 horas de antecedência:
Não assuma que o caminho é óbvio.
- Se o candidato vem de carro, pergunte se necessita de um lugar de estacionamento próximo devido à sua condição motora e, se possível, facilite o acesso ao parque da empresa.
- Se vem de transportes públicos, envie um mapa do local e identifique claramente a porta da receção. Dica: Dê indicações reais que o GPS ignora. Por exemplo: "Se colocar no Google Maps, a entrada indicada pode estar inativa; entre sempre pela Rua Y, identifique-se junto do segurança e anuncie que tem entrevista com a pessoa X."
Antecipe a estrutura da entrevista.
- A transparência reduz drasticamente a ansiedade, especialmente para perfis neurodivergentes. Identifique quem estará presente (nomes e cargos) e desvende as etapas do encontro. Por exemplo: "Iniciaremos com a partilha do seu percurso e competências e, no final, realizaremos um teste técnico com a duração prevista de X minutos."
Retire a pressão do candidato de “pedir” adaptações.
- Termine sempre com uma pergunta aberta e acolhedora: "Existe algum ajuste ou suporte que possamos oferecer para que se sinta mais confortável durante a entrevista?" Esta simples frase retira o peso ao candidato de ter de "pedir um favor" e mostra que a empresa está genuinamente preparada para o receber.
Na entrevista, seja simples e claro.
- Durante a própria entrevista, utilize termos neutros, palavras simples e fale sempre de frente para o candidato, facilitando a eventual necessidade de leitura labial. Evite o sarcasmo e as metáforas complexas, uma vez que candidatos neuro divergentes tendem a ter piores resultados em avaliações que exijam interpretações abstratas.
2.1 Ferramentas digitais de acessibilidade para o processo de recrutamento?
A acessibilidade digital deve ser um tema que não devemos ignorar. No processo de recrutamento devemos ter atenção a:
- Plataformas que garantam que os leitores de ecrã são compatíveis e ultrapassam questões como: “indique as imagens que têm semáforos?” - muitos leitores de ecrã não passam esta prova que os candidatos não são “robots”;
- Utilizar plataformas que permitam legendas em tempo real e chat de apoio;
- Se utilizar testes no processo de recrutamento, certificar se são acessíveis ao nível de linguagem, cores e tempos de resposta.
- Diversificar formas de resposta em alguns exercícios de forma a respeitar diferentes formas de expressão.
Melhore a diversidade e inclusão na sua empresa com o nosso serviço especializado de recrutamento.
3. O onboarding inclusivo: como preparar a equipa para receber o novo talento?
Sobre o onboarding inclusivo podia escrever um livro inteiro e ainda teria pouco espaço para escrever, porque na verdade o onboarding inclusivo não deveria ser encarado como um momento com tempo contado e programado. O onboarding inclusivo pode demorar anos a ser terminado, porque se fala de sentido de pertença e este é volátil, ao ponto de alterar com a saída do porteiro que nos dava o bom dia todas as manhãs.
No entanto, deixo aqui algumas indicações para integrarmos um novo colaborador: o onboarding inclusivo não é mais nem menos que um onboarding universal, que todos nós devíamos ter acesso.
1. Preparar antes da chegada do novo colaborador
Realizar uma breve sessão com a equipa direta (Sem expor as individualidades do colega) sobre as boas práticas de sentido de pertença de um novo elemento numa equipa já estruturada e com relações entre si. Criando um ambiente de receção empática e informada.
2. Identificar o “buddy”
Atribua esta identificação a um colaborador que trabalha próximo do novo colaborador e que possa ser um “guia” na empresa, ajudando a dar nota ao novo colaborador da cultura informal da equipa e da empresa e como “porto seguro” para questões iniciais. Será também a ponte das relações iniciais do novo colaborador com o resto da equipa e empresa.
3. Implementação das adaptações ao posto de trabalho
No momento da entrevista este levantamento é crucial para que o novo colaborador quando chega ao posto de trabalho tenha todos os equipamentos/regimes/ planos de trabalhos adaptados às suas necessidades. E que todos os elementos da equipa tenham conhecimento das suas adaptações ao posto de trabalho desde da sua chegada, para que não exista um sentimento de injustiça ao longo do tempo por parte de outros colaboradores que também sentem necessidades e não são suprimidas (ponto muito importante).
4. Sessões agendadas ao longo do tempo
Criar um calendário de sessões curtas com o novo colaborador para dar espaço ao colaborador de poder dar nota de como se está a sentir.
4. Treinar as lideranças para um processo de seleção imparcial?
Este é, talvez, o maior desafio. Por natureza, todos sentimos maior afinidade com o que nos é semelhante. Quanto mais distante de nós é a realidade do outro, menos consciência temos dos nossos próprios filtros. Por isso, o treino de lideranças foca-se nestes pontos:
- Reconhecer que todos temos enviesamentos. Para os neutralizar, as entrevistas devem ter uma estrutura fixa, onde todos os candidatos respondem às mesmas questões, pela mesma ordem. Isto garante que a decisão se baseia em dados e não na sensação subjetiva de que "tive uma excelente conversa com este candidato, somos muito semelhantes".
- Devemos evitar decisões solitárias. Ter um painel de avaliação que seja, ele próprio, diverso, é a prática mais eficaz para anular preconceitos individuais e garantir uma visão 360º sobre o candidato.
- Em vez de procurarmos o "fit cultural", que muitas vezes é um código para procurar "iguais a nós", devemos focar-nos na adição cultural. O objetivo é identificar o que o novo colaborador traz de diferente: uma nova perspetiva, uma nova identidade e um valor que a equipa ainda não possui.
- Devemos valorizar o "trabalho feito" e a experiência prática acima do prestígio de certas empresas no CV e nome de faculdades conceituadas. Enquadrar o perfil do candidato pelo que ele apresenta e entrega, e não apenas pelo peso de nomes sonantes no currículo, é a chave para encontrar o verdadeiro talento.