Durante muito tempo, falar de coaching nas organizações significava, quase inevitavelmente, falar de liderança e de C-suite. Era uma ferramenta associada a executivos, a posições de elevada responsabilidade e a momentos específicos de desenvolvimento.

Mas o mundo do trabalho mudou. As carreiras são hoje mais dinâmicas, as organizações atravessam transformações constantes e a necessidade de desenvolver competências, tomar decisões e adaptar-se a novos desafios não é exclusiva de quem ocupa os lugares de topo.

É neste contexto que importa repensar o acesso ao career coaching.

O career coaching é um processo individualizado de reflexão e desenvolvimento que ajuda o profissional a compreender melhor as suas competências, motivações e objetivos, tomar decisões de carreira e transformar essas decisões em ações concretas. Pode apoiar diferentes momentos da vida profissional: desenvolver competências, preparar-se para novas responsabilidades, melhorar a comunicação e as relações profissionais, enfrentar desafios de liderança, reforçar o posicionamento e a visibilidade ou explorar possibilidades de mobilidade dentro da organização.

Se as necessidades são transversais à organização, porque deveria também o acesso ao coaching continuar a ser limitado a uma pequena parte dos profissionais?

O papel do career coaching na retenção de talento
O papel do career coaching na retenção de talento

O fim do coaching exclusivo para a C-suite

A associação histórica entre coaching e gestão de topo tem uma explicação. Executivos e líderes enfrentam decisões complexas, responsabilidades elevadas e desafios que justificam um espaço confidencial de reflexão e desenvolvimento.

Mas necessidades de desenvolvimento não começam nem terminam na C-suite.

Um gestor intermédio pode estar a assumir uma nova equipa, a preparar uma conversa difícil, a lidar com um conflito ou a desenvolver a sua capacidade de liderança. Um profissional de uma equipa operacional pode querer desenvolver competências, preparar-se para assumir novas responsabilidades ou encontrar formas mais eficazes de comunicar, colaborar e posicionar-se dentro da organização. Mesmo profissionais com elevado desempenho podem beneficiar de apoio para reconhecer o seu potencial, comunicar melhor o seu contributo ou preparar o próximo passo.

É aqui que importa também desmistificar o conceito de coaching. Não é apenas uma ferramenta para corrigir dificuldades ou desenvolver líderes. Pode ser igualmente uma forma de potenciar aquilo que já funciona, promover excelência e preparar profissionais para novos desafios.

Esta mudança de perspetiva pode contribuir para uma maior equidade no acesso ao desenvolvimento. Não significa proporcionar exatamente o mesmo acompanhamento a todos, mas criar oportunidades para que profissionais em diferentes funções e momentos de carreira possam aceder ao apoio de que necessitam.

E esta questão ganha particular relevância quando pensamos no talento que já existe dentro das organizações. O potencial nem sempre é imediatamente visível. Alguns profissionais podem ter dificuldade em comunicar o seu contributo, tornar mais evidente o impacto do seu trabalho, procurar feedback ou identificar formas de se posicionarem para novas responsabilidades.

O coaching pode ajudar precisamente a criar essa consciência: reconhecer competências, clarificar objetivos, trabalhar a comunicação, ganhar confiança e desenvolver estratégias para tornar competências e contributos mais visíveis dentro da organização.

Democratizar o coaching não é, por isso, apenas dar acesso a uma ferramenta de desenvolvimento. É alargar as oportunidades para que mais talento possa ser identificado, desenvolvido e mobilizado.

A abordagem Tech-Touch

Se o coaching é individualizado, como pode chegar a colaboradores de diferentes funções e níveis hierárquicos sem perder qualidade ou tornar-se difícil de escalar?

É aqui que a abordagem Tech-Touch ganha relevância.

A tecnologia permite facilitar o acesso, disponibilizar recursos digitais, apoiar a jornada de desenvolvimento e chegar a um maior número de colaboradores. Mas a tecnologia não substitui a relação humana que está no centro do coaching.

Uma abordagem eficaz pode combinar diferentes níveis de intervenção, consoante os objetivos e necessidades do programa: tecnologia e recursos digitais, conteúdos de desenvolvimento, ferramentas de reflexão e coaching individual, apoiado por coaches certificados.

Esta combinação permite criar escala sem transformar o coaching numa experiência impessoal.

Tech-Touch não significa low-touch.

Significa utilizar a tecnologia para tornar o desenvolvimento mais acessível e escalável, mantendo a intervenção humana e personalizada através do coaching individual.

É precisamente esta combinação que permite ultrapassar uma das principais barreiras à democratização do coaching: a ideia de que acompanhamento personalizado é necessariamente limitado a um pequeno grupo.

Quando a tecnologia simplifica o acesso e cria uma jornada de desenvolvimento estruturada, o coaching pode chegar a mais pessoas, sem abdicar da qualidade da relação entre profissional e coach. E a utilização de coaches certificados é essencial para assegurar consistência, qualidade e adequação do acompanhamento aos diferentes desafios profissionais.

A escalabilidade permite, assim, passar de um modelo em que o coaching é disponibilizado a alguns profissionais para um modelo em que mais colaboradores podem beneficiar dele ao longo da sua carreira.

Não significa que todos tenham exatamente a mesma experiência. Significa que existe uma possibilidade de acesso mais ampla e que o acompanhamento pode ser adequado aos diferentes contextos, funções e momentos profissionais.

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O impacto na motivação de toda a organização

O impacto do coaching começa no profissional, mas pode refletir-se também na organização.

Para quem recebe acompanhamento, ter um espaço dedicado à reflexão sobre a carreira pode contribuir para maior clareza, autonomia e confiança. Pode ajudar a desenvolver uma competência, preparar-se para uma nova responsabilidade, tomar uma decisão ou enfrentar uma situação profissional exigente.

Para gestores intermédios e equipas operacionais, pode representar algo igualmente importante: ter voz e espaço para refletir sobre desafios que, muitas vezes, fazem parte do quotidiano profissional — desde a comunicação e a colaboração até à gestão de relações, conflitos, prioridades ou novas responsabilidades.

Esta dimensão pode contribuir para uma cultura de pertença. Quando os profissionais percecionam que o seu desenvolvimento é valorizado e que existe espaço para falar sobre desafios, ambições e possibilidades de evolução, reforça-se a ligação à organização.

Naturalmente, o engagement não depende de uma única iniciativa. Mas organizações que criam condições para desenvolvimento, autonomia, reconhecimento e crescimento estão também a criar condições que podem favorecer um maior envolvimento das suas pessoas.

Existe ainda uma dimensão estratégica que merece ser considerada: desenvolver talento pode ser uma alternativa a simplesmente substituí-lo.

Imagine-se uma situação em que uma função deixa de existir enquanto outra área da organização procura competências diferentes. O caminho mais imediato pode ser iniciar um recrutamento externo. Mas poderá existir internamente alguém com competências transferíveis, experiência e potencial para evoluir para essa nova função.

O desafio é que essa possibilidade nem sempre é evidente — para a própria organização ou para o profissional.

O coaching pode ajudar a identificar competências, interesses, motivações e caminhos possíveis, dando ao profissional maior clareza para explorar oportunidades de mobilidade interna. Pode também ajudá-lo a reconhecer competências transferíveis e a posicionar-se para novos desafios.

Para a organização, isto pode significar uma utilização mais inteligente do talento que já possui, preservando conhecimento e criando novas possibilidades de carreira.

É uma mudança de perspetiva importante: olhar para o talento não apenas pelo cargo que ocupa hoje, mas também pelo que pode vir a fazer amanhã.

Da intenção à escala

Democratizar o coaching não significa simplesmente disponibilizar sessões a toda a empresa. Uma implementação eficaz começa por compreender as diferentes necessidades existentes e definir objetivos claros para o programa.

A partir daí, a organização pode combinar tecnologia, recursos digitais e conteúdos com coaching individual, apoiados por coaches certificados, criando um modelo escalável sem perder a dimensão humana e personalizada do acompanhamento.

É também importante acompanhar a experiência e a utilização do programa, recolhendo informação que permita perceber onde está a ser criado valor e onde existem oportunidades de melhoria. Desta forma, o coaching deixa de ser uma iniciativa isolada e passa a integrar uma jornada de desenvolvimento mais ampla.

E esta mudança pode alterar também a própria perceção do coaching dentro da organização.

Desta forma, o coaching pode deixar de ser percecionado apenas como um benefício reservado a alguns profissionais e passar a ser, simultaneamente, um benefício disponibilizado a toda a organização e uma componente de uma estratégia mais ampla de desenvolvimento e mobilidade de talento.

Uma mudança de paradigma

Democratizar o coaching é, por isso, mais do que alargar o acesso a uma ferramenta de desenvolvimento. É reconhecer que potencial, excelência e necessidade de evolução existem em diferentes níveis da organização — e criar condições para que mais profissionais possam desenvolver esse potencial, dar-lhe visibilidade e aplicá-lo de forma mais eficaz no seu contexto profissional.

Com o apoio da tecnologia e de coaches certificados, o coaching pode tornar-se simultaneamente mais acessível e mais escalável, assumindo o seu lugar não apenas como uma solução de desenvolvimento individual, mas também como um benefício para os colaboradores e uma ferramenta estratégica para as organizações desenvolverem e mobilizarem melhor o talento que já possuem.

A questão deixa, por isso, de ser apenas:

“Quem deve ter acesso ao coaching?”

E passa a ser:

“O que poderá uma organização ganhar quando cria condições para que mais do seu talento desenvolva todo o seu potencial?”

Perguntas frequentes (FAQs)

sobre a autora.
Sandra Ferreira
Sandra Ferreira

sandra ferreira

senior consultant | talent mobility, outplacement & career counselling, randstad portugal