de paquete a diretor-geral

A Krypton é a mais antiga produtora a operar no mercado português. E está hoje no pódio da liderança de mercado. Quem o garante é João Vilela, sócio e director-geral da Krypton, que faz parte da empresa desde o primeiro dia. Começou como paquete. E é a prova de que a liberdade para que todos possam crescer faz parte do ADN da Krypton.

Em 2018, Krypton, uma produtora portuguesa, comemorou 30 anos de existência. Como surgiu este projecto?

A Krypton nasceu em 1988 pelas mãos de João Matos e José Cruz e o objetivo era entrar no mercado com um posicionamento inovador, numa busca de novas linguagens e novos formatos. Até a história do nome é de alguma forma invulgar. Penso que num jantar entre os sócios fundadores e o Miguel Esteves Cardoso, grande amigo do João Matos, concluíram que naquele ano, 1988, o Super Homem fazia 50 anos. Krypton veio logo “a baila” e decidiram por esse nome.

E o que destacaria como principais conquistas nestas três décadas?

Há muitos momentos marcantes, e é por isso difícil de escolher os melhores. Logo em 1989 produzimos um anúncio institucional rodado inteiramente em 16mm para a Agros, do qual foi feita uma versão para televisão com a duração de dois minutos. Esta conquistou o grande prémio nos Estados Unidos da América no US Industrial Film Festival.  

Os quatro anos seguintes foram uma época de grandes mudanças, e a empresa alargou substancialmente o leque de clientes. Nesta mesma altura, a Krypton produz dois filmes finalistas no festival de Cannes e no Eurobest. A partir daí foram muitos os prémios conquistados, pelo que é difícil destacar um em particular. Todos têm um sabor especial.

No ano 2000, estreámo-nos na ficção com a produção das curtas-metragens “O Ralo” e “Acordar”, que conquistam dois troféus no festival de Locarno e no festival de curtas metragens de Huesca. Em 2002 produzimos 2 videoclipes: “Tás na boa”, dos The Weasel, que mereceu honras de exibição na MTV, e “Beauty of you” para os Cold Finger, que recebeu o prémio de melhor videoclipe no Fantasporto. Em 2003 fomos responsáveis por uma das maiores produções publicitárias feitas em Portugal – o filme “Baleia”, para a Optimus. Este foi premiado nos Festivais Internacionais EPICA, onde conquista o segundo lugar, no El Hojo onde conquista Ouro, melhor produtora e melhor realização, e no Festival Internacional de Publicidade e no New York Film Festival vence com prata.

Em 2017 nasceu a Krypton International, o que na prática constituiu a entrada oficial da produtora no segmento da produção de services. Hoje já representa 15% da facturação global da empresa.

No ano que agora terminou, quais foram os resultados alcançados?

2018 foi um ano de muito trabalho no qual destacamos campanhas para a Vodafone, McDonalds, Worten, o filme da Sagres para o Mundial, Continente, CGD, Licor Beirão, Sociedade Ponto Verde, Luso e CUF. E, mais do que os prémios conquistados, foi na área das contratações que nos destacámos com a entrada de alguns realizadores para a equipa como é o caso do Norton, um jovem português que vive em Los Angeles e que se consagrou aquando a realização do filme da Nike com o Neymar Jr em 2016.

Numa área bastante desafiante, qual tem sido o segredo da longevidade?

A Krypton é uma produtora vocacionada para a produção de conteúdos, sejam eles spots de televisão, videoclipes, short films, virais para internet, séries etc. Somos uma das três produtoras líderes de mercado e, mais importante do que olharmos para trás, é o facto de nos estarmos já a preparar para os próximos 30 anos. Não há nenhuma produtora com a idade da Krypton a operar no mercado. Acreditamos que estamos no auge da juventude da empresa, sedentos de desafios e novas aventuras. Por isso, iremos manter o espírito que nos caracteriza, a aposta em inovação e o trabalho de excelência a que habituámos os nossos parceiros e que sem o qual não teríamos sobrevivido. Acreditamos que nesta área é necessário continuar a inovar todos os dias. O mundo não pára e as novas tecnologias encarregam-se disso. Temos de acompanhar esse ritmo diário e estar constantemente à procura de novas soluções.

O João faz parte da estrutura da Krypton desde o primeiro dia. Já tinha participado em alguns anúncios, mas estudava direito. Quando a empresa foi criada, ofereceu-se para integrar a equipa e, como a única vaga era de paquete, aceitou. Hoje é sócio e diretor-geral da Krypton. Como foi esta evolução?

Apesar de a minha família ter estado sempre ligada ao cinema, eu estava a estudar direito e nos tempos livres fazia alguns anúncios como ator, entre aspas. Mas não estava satisfeito com o curso e, por isso, quando a Krypton foi fundada ofereci-me para entrar na equipa. A única vaga que tinham era de paquete e eu aceitei. Mas a filosofia da Krypton, transmitida pelo João Matos, fez-me sempre sentir que a empresa também era minha pois todos participavam, todos tinham uma opinião em todos os processos. Até eu! Ao fim de dois anos era diretor de produção e, mais tarde, foi-me dada a hipótese de ter uma participação na sociedade. Hoje partilho-a com o Ricardo Estevão e os realizadores Augusto Fraga e Fred Oliveira.

Esta "filosofia" é um dos pilares da vossa política de Recursos Humanos? Quais as vossas prioridades neste âmbito?

A prioridade é exactamente essa, liberdade para que todos possam crescer na empresa, tal como eu cresci. Liberdade para que todos contribuam de forma a que a evolução seja constante. Somos produtores de conteúdos criativos e, por isso, a busca constante por formatos diferentes, visões alternativas, linguagens novas, tecnologias por explorar, tem de estar presente no nosso dia-a-dia. E isso faz-se através das pessoas, das suas diferentes valências e experiências, das suas tentativas/erro e, consequentemente, do seu crescimento. Não temos fórmulas exatas, mas sim uma postura que defendemos e transmitimos a quem entra na empresa. Ou até mesmo aos nossos clientes e parceiros, que conhecem e respeitam esta nossa filosofia, contribuindo também eles para o nosso crescimento através dos desafios que nos lançam.

Quais as competências que "imperam" na vossa equipa? Ou seja, o que privilegiam quando estão a contratar?

A equipa da Krypton, juntando a Krypton International, é de 15 pessoas. Sendo a criatividade o nosso principal ativo, é muito difícil distinguir quais as competências que prevalecem. No fundo, é isso que procuramos, competências muito diferentes que podem ir desde a técnica de pós-produção à escrita de conteúdos; desde a forma como se interpreta um guião ao uso de linguagens diferentes na realização. Procuramos sempre pessoas com características distintas dentro das mais diversas áreas da produção de forma a crescermos e a termos o melhor leque de oferta para o mercado.

O que diria que vos diferencia enquanto local para trabalhar?

A lealdade para com os nossos princípios. Somo fiéis às nossas regras e gostamos de investir em relações duradouras. Por isso, desde colaboradores a clientes, orgulhamo-nos de poder dizer que temos pessoas ao nosso lado desde o primeiro dia. 

A área em que atuam é bastante específica, mas também têm sentido o impacto da transformação digital nas formas de trabalhar?

Sem dúvida. A evolução tecnológica é imparável, diária e muito desafiadora e estimulante. Por isso, volto a sublinhar a importância da tal liberdade no ADN da Krypton. Temos de ter e dar liberdade à experimentação, à partilha e à aprendizagem ou tornamo-nos obsoletos a um ritmo veloz. Por isso posso garantir que aos 30 anos estamos no auge da nossa juventude, pois manter-nos jovens e atuais é uma demanda constante.

Quais são os vossos principais desafios em termos de gestão de pessoas?

Este é um mercado muito competitivo onde ganha quem tiver o melhor produto, ou seja, a melhor equipa, os melhores realizadores. E se “as pessoas” são aquilo que nos torna apetecíveis, temos de as manter, temos de as envolver, para que sintam que esta é a sua casa. Onde o trabalho é sinónimo de crescimento, diversão, oportunidade. Para que não sintam necessidade de ir para “outra casa”.

Entretanto tornou-se instrutor de yoga e já partilhou que a modalidade o ajudou a ser um líder melhor. De que forma?

São muito anos disto: muito stress, muita agitação, muitas horas de voo e jet lag, cansaço, horários de refeições completamente díspares. E o nosso corpo, física e mentalmente, reflete tudo isso. O yoga ensinou-me a distanciar-me, a relativizar e a ver as coisas de outra forma. Com mais tranquilidade. E também a aguentar fisicamente todos os desafios que se impõem nas muitas horas de gravação e pós-produção. Hoje faz parte da minha vida de forma integral e a equipa agradece!

O que considera fundamental num líder?

Acompanhar, apontar caminhos e permitir escolhas. O respeito para com aqueles que fazem da nossa a sua empresa, o seu percurso. E crescer mutuamente todos os dias.

Que objetivos esperam alcançar a curto/ médio prazo?

Espero daqui a 30 anos poder dar outra entrevista como esta com o mesmo orgulho que dou hoje, mantendo a posição no mercado e a oferta que hoje temos, com uma equipa sólida e motivada, com trabalhos premiados e um mundo ainda repleto de oportunidades por explorar. 

Entrevista a João Vilela, sócio e director-geral da Krypton

< voltar à página anterior