um viveiro de talentos

A atracção e retenção de talento é um dos principais desafios que a MSC Portugal enfrenta. Para o Managing Director Marco Vale, parte do problema passa pelo desconhecimento dos jovens em relação às profissões com efectiva empregabilidade, prevalecendo a pressão pelo “canudo”.

  

Para dar resposta a este desafio, a MSC Portugal estabeleceu uma parceria com a Escola Náutica Infante Dom Henrique (ENIDH) e criou uma Academia, para formar e identificar alunos de elevado potencial e captá-los para as empresas do Grupo em Portugal. Mas, porque entendem ter também o dever de contribuir para a melhoria da formação, e evolução do sector através do seu know-how, está aberta a todos os profissionais no activo, que pretendam desenvolver e/ou aperfeiçoar competências teórico-práticas de especialização em shipping, transportes e logística. A taxa de empregabilidade de quem sai do curso de especialização em “Shipping & Logistics Management” é 90%.

 

A MSC está em Portugal há quase três décadas. Como tem evoluído a vossa presença no País e no grupo?

A MSC iniciou a sua actividade em 1970, tendo representação própria em Portugal desde 1992. A evolução do Grupo tem sido verdadeiramente exponencial, começando a operar com apenas um navio em 1970 e chegando a número dois mundial em menos de 40 anos. É um feito notável e que resulta de uma grande liderança por parte da família Aponte. Em Portugal, a evolução da actividade tem sido igualmente extraordinária, sendo líder no mercado nacional desde 2005. 

 

O que acredita que torna o mercado português interessante para a MSC?

Portugal tem um posicionamento geográfico privilegiado que facilita o transporte de mercadorias por via marítima. Este facto permite que os exportadores e importadores portugueses vejam a via marítima como um dos modos naturais de movimentar as suas mercadorias, captando os mercados mais favoráveis para os seus negócios.

Por outro lado, a estabilidade política e económica é igualmente um factor que um grande Grupo como a MSC avalia quando pondera investimentos locais. Felizmente, Portugal tem sido alvo de permanentes investimentos do Grupo, quer na panóplia de serviços marítimos que disponibiliza, quer nas infraestruturas logísticas que hoje são geridas pelo Grupo MSC em Portugal.

 

E, em Portugal, quais são actualmente os principais desafios do sector do transporte e logística, em geral, e da MSC, em particular?

Um dos grandes desafios está relacionado com a crescente digitalização do negócio e o modo como esta realidade será conciliada com um bom serviço ao cliente. Portugal tem dado passos enormes nesta matéria, com grande destaque para a plataforma Janela Única Logística (JUL), que permite às várias entidades a consulta e inserção de documentação referente às cargas movimentadas nos portos nacionais.

A MSC está também a fortalecer a sua vertente digital de relacionamento com os clientes, nomeadamente através da plataforma MyMSC.com, procurando agilizar a troca de informação com os clientes.

Em paralelo com esta realidade, um outro desafio permanente na MSC é a captação e retenção de talentos. É nosso entendimento que, mesmo com o crescimento do negócio digital, a qualidade dos recursos humanos continuará a ser fulcral para manter um bom serviço ao cliente.    

 

Que prioridades têm assumido para dar resposta a esse desafio, em particular?

Os recursos humanos sempre foram uma prioridade na MSC, em particular a captação de jovens talentos que tenham interesse em desenvolver carreira na nossa actividade de agente de navegação. A Academia MSC/ ENIDH tem sido a nossa resposta a este desafio desde 2015, ano em que a MSC estabeleceu uma parceria com a Escola Náutica Infante Dom Henrique (ENIDH)  – instituição de ensino superior de referência do sector náutico – para a criação de um curso de especialização em “Shipping & Logistics Management”. Grande parte dos jovens quadros que entram na MSC são originários deste curso.

 

A MSC Portugal foi pioneira no universo MSC com o lançamento dessa Academia para formar profissionais…

Sim… O mentor da ideia da Academia foi Carlos Vasconcelos, presidente do Conselho de Administração do Grupo MSC em Portugal. A ideia passava pela criação de um espaço formativo onde fosse possível proporcionar conhecimentos técnico-práticos sobre a actividade do agente navegação/ armador – ou seja, shipping –, assim como um espaço de captação de talento, onde fosse possível observar o desenvolvimento e evolução dos alunos, para as empresas do Grupo em Portugal.

Surgiu assim este projecto formativo, com a conjugação de vontades e esforços da MSC Portugal e da Escola Náutica Infante D. Henrique, para desenhar o Curso de Especialização em Shipping & Logistics Management, com conteúdos direccionados para o transporte contentorizado e para a logística, com uma forte componente prática – on the job training –, centrado na actividade do agente de navegação.

Esta parceria surgiu de forma bastante natural, uma vez que a ENDIH já constituía uma base de referência nos processos de recrutamento e selecção da MSC, nomeadamente quanto a jovens recém-diplomados das licenciaturas de “Transportes e Logística” e de “Gestão Portuária”. E é uma parceira fundamental neste projecto, não unicamente pelo reconhecimento nacional e internacional quanto à qualidade do seu ensino, como também devido ao seu rigor técnico-científico, visível nos centros de investigação, desenvolvimento e de formação especializada, assim como nos respectivos programas e projectos.

 

Em que consiste o curso e a quem se dirige?

O curso tem a duração de um ano lectivo, com uma carga horária de 320 horas, e inclui visitas às principais infra-estruturas logísticas nacionais. As aulas decorrem nas instalações da ENIDH, num espaço do campus dedicado à Academia, mas em ambiente MSC, e está aberto a alunos finalistas e diplomados pela ENIDH, a colaboradores MSC/MEDWAY e a todos os profissionais no activo que pretendam desenvolver e/ou aperfeiçoar competências teórico-práticas de especialização em shipping, transportes e logística.

 

É interessante que não estejam a formar só para vocês, mas para o sector como um todo, ou seja, para os concorrentes também. Porquê esta opção?

A Academia foi pensada para ser um “viveiro” de talentos, um espaço onde é possível, ao longo de um ano lectivo, identificar alunos de elevado potencial e captá-los para as empresas do Grupo em Portugal. Por outro lado, enquanto líderes de mercado em Portugal, entendemos que temos também o dever de contribuir para a melhoria da formação no nosso sector através do know-how dos nossos quadros que também dão formação na Academia. Esta opção foi natural pois consideramos ser importante que todo o nosso sector possa evoluir e beneficiar com este curso.

Este curso de especialização em “Shipping & Logistics Management” foi uma novidade absoluta da MSC Portugal, que reforça a sua atitude pioneira, inovadora e corajosa. Pela primeira vez no sector do shipping, uma empresa e uma instituição de ensino superior, no caso a Escola Náutica Infante D. Henrique, uniram esforços para criar de raiz uma cátedra pensada e construída à medida das necessidades da empresa promotora e do sector em que se insere.

O protocolo celebrado entre a MSC e a ENIDH contempla a possibilidade de um estágio remunerado na MSC para alunos finalistas e/ou licenciados pela ENIDH, que tenham concluído com sucesso a Academia. Por outro lado, um dos grandes objectivos deste curso é “escolher os melhores entre os melhores”, oferecendo-lhes a possibilidade de integrarem os quadros de um Armador de referência mundial no transporte marítimo contentorizado.

 

Que resultados já conseguem perceber desta aposta?

O sucesso deste curso, que já vai entrar na sua 5ª edição, reflecte-se na sua taxa de empregabilidade de 90%, já que praticamente todos os alunos foram integrados, ou na própria MSC Portugal ou em empresas de referência do sector.

 

Qual o papel que a Gestão de Pessoas assume do vosso negócio?

Assume um papel fundamental no negócio e na nossa visão estratégica. A par da grande oferta de serviços marítimos que disponibilizamos, a qualidade e dedicação das nossas pessoas são, sem dúvida, a razão pela qual a MSC é líder de mercado em Portugal e se distingue das restantes agências de navegação.

 

Quantas pessoas têm actualmente a trabalhar em Portugal?

A MSC Portugal – Agência de Navegação tem actualmente cerca de 170 colaboradores, dispondo ainda de um centro de serviços partilhados designado por MSC Competence Center, com cerca de 70 colaboradores, que dá resposta às áreas transversais a todo o Grupo em Portugal.

A nível de Grupo, temos mais de 900 colaboradores em Portugal, com grande destaque para as actividades ligadas à operação ferroviária e à logística, encabeçadas pela Medway, que é o braço logístico do Grupo em Portugal.

 

Quais os principais desafios na gestão dessa massa humana?

Mais uma vez, diria que é a retenção de talentos. A nossa equipa é bastante jovem. Cerca de metade dos colaboradores da MSC Portugal tem menos de 35 anos. Como sabemos, esta geração de jovens é ambiciosa, bem preparada em termos académicos e ávida de constantes estímulos para as suas carreiras.    

 

Fala-se muito na escassez de profissionais na área das Tecnologias, mas é um problema transversal a muitas áreas. O que acha que se podia/ devia fazer ao nível do ensino para tentar colmatar essa escassez crescente? Ou a solução passa pela reconversão de profissionais e pelo papel das próprias empresas que, como a MSC, assumiu essa "responsabilidade"?

Se perguntarmos a um aluno finalista do ensino secundário se conhece a actividade de um agente de navegação, provavelmente a resposta será negativa, mesmo sendo uma actividade com elevado índice de empregabilidade. Há ainda algum desconhecimento por parte dos jovens em relação às profissões com efectiva empregabilidade, ainda prevalece o sentimento de que o importante é ter um diploma universitário, mas muitas vezes esse diploma não é sinónimo de uma necessidade do mercado.

É importante aproximar os jovens das empresas, mas não considero que esta responsabilidade recaía apenas nas empresas. Em muitos países, é comum os jovens fazerem estágios durante o Verão logo a partir dos 15 ou 16 anos e começarem desde muito cedo a perceber as dinâmicas do mercado de trabalho. Esta atitude de preparar a entrada no mercado de trabalho ou de avaliar qual a melhor opção em termos de ensino superior é muito importante, e deve começar em casa, devendo ser tema de conversa recorrente entre pais e filhos.

 

Quais têm sido as vossas principais apostas para assegurar a retenção de talentos?

A MSC lançou, em 2018, uma Academia internacional que consiste num curso de imersão durante duas semanas, em Riga, na Letónia, reservado aos colaboradores das várias agências MSC a nível mundial que tenham grande potencial de crescimento dentro do Grupo.

Da MSC Portugal já tivemos cinco participantes e o impacto tem sido extremamente positivo e motivador para os nossos colaboradores. A formação e as oportunidades de crescimento profissional dentro do Grupo são um dos nossos pilares para a retenção de talentos.  

 

O que torna esta área, em geral, e a MSC Portugal, em particular, atractiva para trabalhar?

Diria que é o próprio dinamismo da nossa actividade. Toda a actividade relacionada com transportes e logística tem a sua dose de imprevisto e a consequente resolução das situações provocadas pelos imprevistos, será esse o “sal” desta actividade.

A MSC tem igualmente uma enorme dinâmica, que se transmite a todos as agências no mundo inteiro. É curioso observar, nos meetings internacionais, que existe realmente uma cultura de Grupo neste aspecto. Como estamos permanentemente em busca de novas soluções ou de melhorar as existentes, dificilmente os dias parecem iguais.

 

Tendo sucedido ao líder histórico da MSC Portugal - Carlos Vasconcelos, que liderou a empresa desde a sua fundação em Portugal - como encarou esta responsabilidade e quais foram os principais desafios iniciais?

Na realidade não houve qualquer tipo de choque ou de disrupção. Mais uma vez, a dinâmica da MSC e o facto de ter permanentemente os olhos no futuro ajudaram bastante nesta transição. Em 2014 passei a exercer o cargo de deputy managing director, que até então não existia na empresa, com o objectivo de preparar a sucessão de uma forma gradual. O facto de estar na empresa há 19 anos e de ter vivido grande parte do crescimento e dos projectos da empresa também contribuiu para o passar de testemunho ser natural. 

 

O que assume agora como objectivos s concretizar a curto/ médio prazo?

O ganho de eficiência nos processos internos é um dos grandes objectivos a curto e médio prazo. Queremos acompanhar o desenvolvimento das ferramentas digitais de interação com o cliente, com uma melhoria significativa de algumas das tarefas internas que mais tempo consomem aos nossos colaboradores. Ao ganhar eficiência nessas tarefas poderemos concentrar o nosso tempo no serviço ao cliente.

 

Que tendências perspectiva para o futuro, não só do vosso negócio mas ao nível do trabalho?

Uma das tendências será certamente a desmaterialização do nosso posto de trabalho. Trabalhar por via remota a partir de casa ou até de uma esplanada é já uma realidade, com vantagens ao nível da qualidade de vida das pessoas e também em termos dos custos fixos das empresas. Imagine a melhoria no trânsito das cidades se 20% das pessoas ficassem a trabalhar a partir de casa.